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Padrão de Resposta
O período posterior à Segunda Guerra Mundial foi marcado pelo início da Guerra Fria, que se caracterizou pelo conflito ideológico entre o capitalismo e o comunismo. Nesse contexto, a atuação internacional de países como o Brasil, que buscavam recursos para viabilizar seu desenvolvimento interno, estava limitada por aquele conflito. A solução encontrada pela diplomacia brasileira foi participar, de maneira ativa, das discussões em foros multilaterais de comércio, de modo a garantir a formação de regras internacionais que beneficiassem países em desenvolvimento, bem como em instâncias políticas que assegurassem o princípio da autodeterminação dos povos.
Em 1944, antes mesmo do fim da Segunda Guerra Mundial, o Brasil participou ativamente das reuniões de Bretton Woods, que criariam órgãos multilaterais para a regulação dos sistemas econômico e financeiro internacionais. Em 1947, também foi atuante nas negociações que resultaram no acordo do GATT, diante do fracasso em instituir-se a Organização Internacional do Comércio. Esse período coincide com o projeto desenvolvimentista brasileiro, inaugurado no período Vargas e conduzido pelos governos seguintes, em maior ou menor grau. Para isso, era fundamental que o Brasil se engajasse nas negociações multilaterais de comércio.
Na década de 1950, começa a ganhar força no Brasil a tese cepalina de deterioração dos termos de troca, pela qual os produtos agrícolas, produzidos por países em desenvolvimento, tenderiam a ter seus preços depreciados em comparação aos produtos manufaturados exportados por países desenvolvidos. Não obstante, o Brasil tinha por objetivo garantir a redução tarifária de produtos agrícolas, especialmente o café, para que pudesse aumentar suas exportações e, consequentemente, viabilizar seu projeto desenvolvimentista, por meio da geração de receitas.
Essa aparente contradição entre a teoria cepalina e o projeto de aumento das exportações brasileiras teve repercussão nas negociações comerciais internacionais das quais o Brasil participou. A atuação da diplomacia brasileira foi importante para o sucesso das diversas rodadas de negociação do GATT, que contribuíram, de fato, para reduzir as tarifas que restringiam o comércio internacional. Ao mesmo tempo, o Brasil uniu-se a outros países em desenvolvimento, para reivindicar acesso a mercado nos países desenvolvidos, como ficou demonstrado pela atuação no âmbito da UNCTAD, na Organização das Nações Unidas (ONU). Foi neste órgão que a diplomacia brasileira atuou de maneira destacada, com o objetivo de reduzir as assimetrias entre países desenvolvidos e aqueles em desenvolvimento.
No que tange a participação brasileira nos trabalhos da ONU para a descolonização africana, sua atuação foi crescente, uma vez superado o relativo afastamento da diplomacia brasileira nessas discussões. Como forma de participar de suas reuniões, o Brasil ingressou no Conselho de Tutela da ONU, que era o órgão responsável pelo tema da descolonização. O Brasil passou a apoiar os processos de independência afro-asiáticas, tendo como base o princípio de autodeterminação dos povos, especialmente após a formulação da Política Externa Independente (PEI), durante o governo de Jânio Quadros. Nesse momento, no entanto, ainda havia certa contradição quanto à descolonização de colônias portuguesas na África, em decorrência dos fortes laços que uniam o Brasil à sua ex-metrópole. O apoio incondicional à descolonização africana viria apenas durante o regime militar, especialmente com o “pragmatismo responsável e ecumênico” do governo Geisel, quando o Brasil foi o primeiro país a reconhecer o governo do MPLA, em Angola. Essa atuação demonstra o caráter pragmático da política externa brasileira, que precisava de apoio de países afro-asiáticos em temas multilaterais, especialmente aqueles relacionados ao comércio internacional.
O contexto da Guerra Fria, portanto, levou a diplomacia brasileira a engajar-se de forma autônoma nas discussões multilaterais de comércio e de descolonização, especialmente na África. Em questões comerciais, o Brasil participou ativamente das reuniões do GATT, além de ter sido membro-fundador de diversas organizações comerciais temáticas, como a Organização Internacional do Café, durante a década de 1950. Já em questões de descolonização, houve evolução do papel da diplomacia brasileira, desde o fim da Segunda Guerra Mundial até o reconhecimento da independência de Angola, no governo Geisel. Ambos são exemplos de que há aprofundamento e continuidade da política externa brasileira ao longo do tempo, independentemente do regime político em vigor no país.