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Padrão de Resposta
A classe média urbana brasileira teve a sua conformação condicionada por dois grandes aspectos: a existência do complexo cafeeiro paulista e seus multiplicadores; a industrialização insipiente e o surgimento de atividades citadinas mais complexas, inicial e predominantemente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Destarte, vale dividir a análise desses fatores em três conjuntos relacionados: a ascensão da economia cafeeira, das elites a ela relacionadas e sua produção política; a imigração européia e seus impactos; os anseios dessas novas camadas médias urbanas no início do século XX, essencialmente relacionados aos projetos políticos de então.
O fortalecimento da economia cafeeira, na segunda metade do século XIX, trouxe à configuração socioeconômica do Brasil mudanças essenciais, que podem ser analisadas à diferença de um sistema anterior: o complexo açucareiro. A nova economia cafeeira iria muito além de uma ilha autossuficiente, segundo análise de Celso Furtado. Ao contrário de um sistema fechado, sem circulação de renda e sem a criação de demandas externas, como o era o sistema açucareiro, a nova economia do café vai absorver, gradualmente, mão de obra livre, e gerar demandas de produtos por parte dessa nova classe, bem como do próprio setor. O controle da produção, por sua vez, encontrava-se, nesse momento, interiorizado no país, e não mais ligado à companhia das Índias Ocidentais ou a outros financistas. Do controle da produção, passar-se-ia ao estabelecimento de demandas políticas de uma classe que não mais aceitaria a coadjuvância política: a relativa decadência do Nordeste açucareiro deixaria um vácuo de poder primeiramente ocupado pela elite cafeeira fluminense, e posteriormente pelos cafeicultores do oeste paulista. A participação na nova configuração política e a extensão da economia, incluindo-se nesse sistema o novo trabalhador livre, levariam a um processo de aceleração da dinâmica urbana. A construção de ferrovias permitiu, assim, não apenas o transporte da produção até o porto de Santos, mas o estabelecimento, pelos cafeicultores, de moradias urbanas. A esse estabelecimento seguiram-se reformas naturalmente imprescindíveis: companhias de gás; bondes; telégrafos; serviços financeiros e casas comerciais. A economia cafeeira estendeu efeitos multiplicadores que foram além da constituição de uma elite política e econômica e conformaram também uma nova classe urbana, ligada aos serviços já descritos.
Cabe, ainda, relacionar a economia cafeeira às primeiras indicações de um processo de industrialização no Brasil. A passagem da produção cafeeira do Vale do Paraíba para o Oeste paulista serve de fundamento de análise para essas indicações. Como modelos macroanalíticos, que comportam exceções, pode-se caracterizar a produção cafeeira fluminense em menos avançada: baseada em terras de baixa fertilidade, que exigiram a expansão das propriedades até o limite do referido vale, essa produção era amplamente sustentada por mão de obra escrava e pelo transporte do café em mulas. O segundo modelo, implantado sobre as terras roxas, mais produtivas, conheceria mão de obra predominantemente livre e transporte ferroviário. À expansão da produção, limitada posteriormente pelas quedas do preço do café, seguir-se-ia o desvio de parte dos capitais para atividades industriais, a saber a têxtil.
Essa nova elite cafeeira, que dominaria o sistema político nacional até as três primeiras décadas do século XX, sob a política dos Estados, promoveria um movimento de atração de imigrantes para o trabalho nas lavouras. Inicialmente oprimidos pelo regime de semi-servidão do colonato, e impossibilitados, em sua maioria, de comprar as suas propriedades (a Lei de Terras, promulgada em 1850, reconhecia então que à iminente libertação dos escravos deveria seguir a imposição de limites à aquisição de lotes, de forma a manter um excedente de trabalhadores), parte desses imigrantes desenvolveriam atividades urbanas. Em São Paulo, a maioria italiana foi absorvida pela insipiente industrialização; no Rio de Janeiro, posteriormente, reproduzir-se-ia aquele modelo. A imigração japonesa constituiria cinturões de produção agrícola, que abasteciam as cidades diretamente. De uma forma ou de outra, porém, os imigrante trariam mais do que suas culturas familiares: um modelo de organização social de impacto urbano. Para outros autores, a imigração italiana traria também os primeiros ímpetos de organização operária.
Essas novas camadas médias urbanas, portanto, não se encontravam impassíveis diante das modificações por que o país passava. Mais educadas do que a grande massa camponesa, mais desvencilhadas das políticas dos grandes coronéis, e reconhecendo o projeto político de dominação oligárquico, elas estariam na base de movimentos políticos das segunda e terceira décadas do século XX. Essa nova classe: condenava o agrarismo, que sustentava as oligarquias cafeeiras, e muitas vezes defendia um projeto industrializante; condenava o alijamento político em que se encontrava, viabilizado pela política dos governadores e pelas fraudes nas eleições; sofria com as políticas econômicas de valorização do café, que desvalorizavam a moeda nacional e impediam a importação de produtos essenciais.
Com mais acesso à informação, tais camadas conseguiram reconhecer, ademais, a existência de outros setores sociais cujas demandas, se não totalmente convergentes com as suas aspirações, ao menos não divergiam no propósito de se opor às elites políticas do período. Foram eles: o movimento operário, que se organizava a partir da década de 1920; o movimento tenentista, projeto modernizador; oligarquias dissidentes, que não haviam participado da configuração política de então.
As camadas médias urbanas e esses setores conseguiriam, posteriormente, realizar parte de suas expectativas: o fim da República oligárquica e a ascensão de um Estado de compromisso que promoveria a industrialização e a modernização do país. Outrossim, mudariam, depois, as suas demandas, bem com as suas formas de participação da vida política nacional.