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Padrão de Resposta
O retorno de Getúlio Vargas ao poder, no início da década de 1950, ocorreu em momento de relativa frustração com as expectativas vinculadas a um relacionamento privilegiado com os Estados Unidos. As contrapartidas esperadas pelo Brasil, em conseqüência do apoio incondicional aos Estados Unidos, na segunda metade da década anterior, não ocorreram. A Comissão Mista Brasil-Estados Unidos constituiu uma tentativa norte-americana de atendimento dessas expectativas e, embora não fosse exatamente o que se esperava, legou avanços importantes para o planejamento do desenvolvimento nacional.
O governo de Getúlio Vargas, em virtude da inserção brasileira no continente americano e do acirramento das tensões entre os Estados Unidos e a União Soviética, não pôde recorrer à barganha que lograra, antes da II Guerra Mundial, com a mesma efetividade. A aproximação aos Estados Unidos durante o conflito mundial e a influência ideológica estadunidense sobre setores sociais relevantes internamente, como as Forças Armadas, limitava a ação externa do Brasil.
Os financiamentos públicos norte-americanos para o desenvolvimento do país, nos moldes do auxílio oferecido à Europa ocidental e ao Japão, não foram concedidos. Em compensação, os estadunidenses condicionaram a concessão de créditos pelo Eximbank à elaboração de um diagnóstico da economia brasileira, o que ficou sob a responsabilidade da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos (CMBEU), adrede constituída. Os estudos da CMBEU deveriam identificar as vocações da economia nacional e fundamentar a concessão de créditos e a realização de investimentos do setor privado.
A cooperação consubstanciada nos trabalhos da CMBEU consiste em uma conquista da política externa brasileira e contribuiu para a formação de quadros nacionais em aspectos relacionados ao desenvolvimento do país. Apesar disso, o grupo foi extinto em poucos anos, em decorrência das tensões entre os dois países no que concerne à concessão de financiamentos e às políticas econômicas que iam de encontro às recomendações estadunidenses.
Os relatórios da CMBEU ensejaram a concessão de créditos ao Brasil pelo Eximbank e subsidiaram a formulação da política externa do país. No Governo de Juscelino Kubitschek, foi enviado aos Estados Unidos memorial de que constavam as diretrizes da política externa brasileira, influenciadas pelos documentos produzidos pela comissão mista. A extinção da cooperação, entretanto, aconteceu nesse mesmo governo. A Operação Pan-Americana, com sua defesa da necessidade de promoção do desenvolvimento do continente como forma de contenção das ditas ideias exógenas ao sistema americano, ecoa as contribuições brasileiras consolidadas no âmbito da experiência da CMBEU.
A constituição da CMBEU pode ser considerada um êxito da política externa brasileira da década de 1950, em contexto de limitação das possibilidades de sua ação em virtude da Guerra Fria. Marcou uma aproximação bilateral entre Brasil e Estados Unidos e, por meio da cooperação, contribuiu para o amadurecimento técnico de quadros da burocracia nacional e para as formulações desenvolvimentistas brasileiras.