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O governo de Castelo Branco, que assume após o golpe que depôs João Goulart, reorganiza as bases de orientação da política externa brasileira, que vinha caminhando no sentido da universalização, autonomia e pragmatismo, colocando-a novamente num eixo de alinhamento automático com os Estados Unidos. Esse "passo fora da cadência" coloca o Brasil em situação de atrito com a Argentina, que no contexto da bipolaridade do cenário internacional vinha esboçando e defendendo uma espécie de "terceira via", nem neutraliza nem terceiro mundiça.
O afastamento claro de Castelo Branco dos princípios da Política Externa Independente (PEI) traz consequências diretas para a ação brasileira. Primeiro, o país volta a acompanhar as decisões norte-americanas nos principais órgãos multilaterais, incluindo a Organização dos Estados Americanos (OEA). Como uma forma de "demonstração de apreço", o Brasil rompe com Cuba ainda em 1964 (laço que só seria retomado nos anos 1980) e distancia-se das configurações e agrupamentos que pregavam uma nova ordem internacional. Ao fazê-lo, o Brasil criava dificuldades para a ampliação das relações bilaterais com a Argentina, que procurava sustentar seu desenvolvimento e crescimento (nesse período superior ao brasileiro, com taxas e indicadores de qualidade de vida bem superiores aos brasileiros) por meio de estratégia alternativa de inserção internacional.
A dificuldade do diálogo irá exacerbar a histórica rivalidade entre os dois grandes da América do Sul, em um período em que ambos os países (com vantagem grande para a Argentina) começam a dar passos no sentido de dominar os conhecimentos e as tecnologias necessárias para a utilização pacífica (possível e temivelmente militar) da energia nuclear. Outros aspecto de tensionamento, afetado pela dificuldade de diálogo, dirá respeito ao aproveitamento dos rios internacionais, ou comuns, para fins de geração energia ou outros. Esse debate estender-se-á para a década de 1970, sendo sua resolução — com a assinatura do Convênio Itaipú-Corpus — o passo inicial no distencionamento entre as duas nações.
A tentativa brasileira, na esteira da mudança de rumos da política externa implementada por Castelo, de estabelecer laços prioritários e estratégicos com os Estados Unidos também será mal vista pelos argentinos, uma vez que se temia a ação subimperialista brasileira, que poderia vir a atuar como "xerife" norte-americano na América do Sul, o que não interessava à Argentina.
Mesmo as questões de aproximação comercial, com liberalização tarifária, como previa o Tratado de Montevidéu 1960 (que criou a Associação Latino Americana de Livre Comércio) não tiveram encaminhamento satisfatório, uma vez que o Brasil rejeitava a aproximação sub-regional em favor de relações mais favoráveis com o gigante norte-americano, já na década de 1960, o maior parceiro comercial brasileiro, além de principal fornecedor de crédito ao Brasil. Só na década de 1980, em meio a grandes crises e ato endividamento, com o processo de redemocratização, tanto argentino como brasileiro, é que os dois países vão procurar aproximar-se comercialmente, dessa vez no âmbito do Tratado de Montevidéu 1980 (criador da ALADI).
Embora o realinhamento brasileiro com os EUA e o abandono das bases e conceitos da PEI tenham sido breves (1964-1967), suas conseqüências para o relacionamento Brasil-Argentina foram de grande monta, uma vez que o distanciamento e a dificuldade de diálogo permaneceriam por cerca de 20 anos, sendo apenas retomado efetivamente com o histórico encontro Sarney-Alfonsín em 1985.