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HISTÓRIA DO BRASIL 2011
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Questão q1 de 2011

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

Através de grossas portas,1
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras:4
olhos colados aos vidros,
mulheres e homens à espreita,
caras disformes de insônia,7
vigiando as ações alheias.
Pelas gretas das janelas,
pelas frestas das esteiras,10
agudas setas atiram
a inveja e a maledicência.
Palavras conjeturadas13
oscilam no ar de surpresa,
como peludas aranhas
na gosma das teias densas,16
rápidas e envenenadas,
engenhosas, sorrateiras.
Atrás de portas fechadas,19
à luz de velas acesas,
brilham fardas e casacas,
junto com batinas pretas.22
Uns são reinóis, uns, mazombos;
e pensam de mil maneiras;
mas citam Vergílio e Horácio,25
e refletem, e argumentam,
falam de minas e impostos,
de lavras e de fazendas,28
de ministros e rainhas
e das colônias inglesas.
31 Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
34 acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
“Escreva-me aquela letra
37 do versinho de Vergílio…”
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
40 com dramática prudência:
“Tenha meus dedos cortados,
antes que tal verso escrevam…”
43 LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
46 e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus — pois se atreveram
49 a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).
E a vizinhança não dorme:
52 murmura, imagina, inventa.
Não fica bandeira escrita,
mas fica escrita a sentença.
Cecília Meireles. Romanceiro da Inconfidência.
Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
1 977 , p . 450-2 ( com adap taçõ e s ) .

Com relação às ideias e às estruturas linguísticas do texto acima, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. Entende-se da leitura do poema que os inconfidentes foram sentenciados por atuarem contra os interesses da Coroa portuguesa, mas não por haverem registrado, na bandeira criada, o anseio por liberdade.

  2. Nos dois primeiros versos, o eu lírico alude ao sigilo dos inconfidentes por meio de paradoxo e sinestesia.

  3. No trecho “Uns são reinóis, uns, mazombos; / e pensam de mil maneiras; / mas citam Vergílio e Horácio, / e refletem, e argumentam,” (v.23-26), fica evidenciado que, independentemente da origem social, os inconfidentes compartilhavam o mesmo grau de erudição.

  4. Da leitura da quarta estrofe (v.35-50) depreende-se que a palavra liberdade é o fulcro vital da bandeira dos inconfidentes e representa a finalidade do engajamento político daquele grupo.