Compare as posições do Brasil no Império e na República nascente, no que tange à Conferência de Washington (1889-1890).
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Desde sua Independência, o Brasil tinha relegado pouca atenção à América Hispânica, com exceção da região do Prata. Única Monarquia entre Repúblicas, o Brasil era visto com desconfiança pelos outros Estados latino-americanos. Embora sua política externa fosse pautada pelo pragmatismo, objetivando principalmente definir os limites de seu território, o Brasil estava atento às movimentações internacionais de coligações regionais, ora participando, ora abstendo-se das reuniões pan-americanistas de caráter bolivariano. Exatamente para evitar a formação de uma liga regional contra o Brasil, o país atuava bilateralmente, de modo a alcançar boas relações com os Estados sul-americanos. A Proclamação da República aconteceu em um momento singular das relações continentais, quando o Império já aceitava participar das reuniões pan-americanas, mas agora de caráter monroísta, pois grande parte de seus contenciosos com os vizinhos já estava encaminhada. A mudança de regime também trouxe mudanças profundas na política exterior do país, pois os líderes políticos de então acreditavam que republicanizar as relações internacionais significava americanizar irrestritamente as decisões externas.
O último presidente do Conselho de Ministros do Império, Ouro Preto, fora chamado ao poder para inviabilizar a República. Por meio do reform-mongering, o Império acreditava que realizando as reformas solicitadas por diversos setores, como o fim do Senado vitalício, o voto universal, o fim da escravidão, poderia ser mantido o regime político. Contudo, no plano internacional, o Império não mudou suas diretrizes, e as ordens do representante brasileiro para a Conferência de Washington seguiam a racionalidade da política externa imperial que vinham desde a década de 1840. Essa política externa foi marcada pela continuidade e pela racionalidade, decidida pelas instituições do Conselho de Estado, Parlamento, Conselho de Ministros e pelo próprio Imperador. Após a vitória na Guerra do Paraguai e da distensão nas relações com a Argentina, depois que sua arbitragem com o Paraguai pelo Chaco Boreal foi decidida favoravelmente ao país mediterrâneo pelo presidente Hayes, o Brasil pôde voltar-se para suas relações internacionais com a Europa e com os Estados Unidos.
Na década de 1880, embora voltado para a resolução de seus problemas internos, o Brasil deu os primeiros sinais amistosos em direção a um pan-americanismo do estilo monroísta. Ainda que o Império não atuasse de forma automática, a aceitar uma influência norte-americana absoluta, percebeu a importância de a América estabelecer-se politicamente em torno do novo polo emergente das relações internacionais, para evitar iniciativas imperialistas das potências do Velho Continente. A primeira conferência pan-americana sob os auspícios dos EUA tinha sido cancelada por causa da Guerra do Pacífico (1879-1883), envolvendo o Chile contra o Peru e a Bolívia. A distância de quase dez anos para a segunda conferência, essa realizada em Washington de 1889 a 1890, não modificou profundamente os interesses nem as prevenções do Brasil relacionados a ela. Os EUA pretendiam estabelecer uma hegemonia no continente, por meio de projetos como a instalação de uma união aduaneira, de uma interligação ferroviária continental, ou ainda a instituição de arbitragem internacional obrigatória. O Brasil, assim como a Argentina e o Chile, opunha-se a tais desígnios, pois entendia que preservar sua autonomia política nas relações regionais (onde tinha maior margem de manobra) era primordial para sua política exterior de atuação subregional mais livre. De igual modo, preservar sua liberdade econômica, que seria engessada por uma união aduaneira dominada pelos EUA, era fundamental para manter e expandir suas relações com as potências europeias, tanto para mercados de exportação e importação quanto para a atração de importantes investimentos para desenvolvimento doméstico.
A ascensão de atores políticos que não tinham experiência prévia na política externa brasileira foi uma consequência direta da Proclamação da República. Como o exemplo da negociação direta das fronteiras entre Brasil e Argentina feita pelo próprio ministro Bocaiúva ilustra, a política exterior republicana pretendeu alterar completamente diretrizes antigas, arraigadas da política exterior imperial. Nesse diapasão, a substituição do representante imperial brasileiro à Conferência de Washington por Salvador de Mendonça foi acompanhada pela alteração das ordens e dos limites possíveis de negociação. Acreditando-se que o simples fato de tornar-se República teria alinhado os interesses do Brasil com os EUA, decidiu-se pela adoção de posições fortemente influenciadas por um americanismo ideológico. O Brasil, representado por Mendonça, passaria a aceitar as propostas hegemônicas do grande irmão do norte. Não fossem as prevenções e oposições de Chile e Argentina, a imposição do arbitramento obrigatório feito pelos EUA teria sido implementada no continente como resultado da Conferência. De igual modo, esses dois países resistiram ao projeto da união aduaneira, algo que não seria alcançado pelos EUA nem mesmo no séc. XXI.
A Proclamação da República teve muitos efeitos imediatos e outros tantos a médio e a longo prazo. Um desses efeitos de curto prazo foi a modificação nas diretrizes da política exterior. Ainda que a noção de que republicanizar a política exterior fosse americanizá-la, a ausência de quadros qualificados republicanos para atuarem nessa área levou ao retorno de antigas diretrizes no médio prazo. Os diplomatas formados no II Reinado, como o próprio Barão do Rio Branco, tratariam de dar direções mais condizentes aos interesses pátrios, mas sabendo reconhecer a mudança do polo político internacional da Europa para os EUA, algo sistemático e não proveniente de mudanças políticas internas. O estabelecimento da Secretaria Pan-Americana, fruto da Conferência de Washington, demonstrou o começo da institucionalização da influência americana no continente e o Brasil soube adaptar-se às mudanças.