A Constituição da República tem um buraco.1
É possível que tenha muitos, mas sou pouco exigente e satisfaço-me com referir-me a um só.
Possuímos, segundo dizem os entendidos, três poderes — o Executivo, que é o dono da casa, o Legislativo e o Judiciário,
domésticos, moços de recados, gente assalariada para o patrão fazer figura e deitar empáfia diante das visitas. Resta ainda um quarto4
poder, coisa vaga, imponderável, mas que é tacitamente considerado o sumário dos outros três.
É aí que o carro topa. Há no Brasil um funcionário de atribuições indeterminadas, mas ilimitadas.
Aí está o rombo na Constituição, rombo a ser preenchido quando ela for revista, metendo-se nele a figura interessante do7
chefe político, que é a única força de verdade. O resto é lorota.
Em escala descendente, a começar no Catete, onde pontifica o chefe açu, e a terminar no último lugarejo do sertão, com um
caudilho, mirim, isto é um país a regurgitar de mandões de todos os matizes e feitios.10
Está aqui um deputado que é um poço de manha, papagueador quando parola com o eleitorado, mudo na Câmara, gênero
peru; ali está um presidente de estado que outra coisa não tem feito senão apregoar pelas trombetas oficiais as maravilhas que ninguém
vê, mas que ele teve o notável intuito de realizar; temos acolá um advogado ventoinha, equilibrista emérito, camaleão legítimo; vem13
depois o comerciante voraz, enriquecido com os favores clandestinos, negociatas escusas e contrabandos; mais distante, avulta a
majestade rotunda do industrial insatisfeito, empanturrado pelas propinas que a guerra lhe meteu no bucho.
Todos eles são mais ou menos chefes. Não se sabe bem de quê, mas certo é que o são. Graúdos, risonhos, nutridos, polidos,16
escovados, envernizados, lá estão inchando, inchando. São os grossos batráquios da lagoa republicana. (…)
Parece-me claro que uma pergunta aqui se impõe: para que tanta gente de palha a ocupar cargos em penca, a roer sinecuras
nesta confederação cinematográfica, em que o poder é a coisa mais centralizada deste mundo, se, desde o tempo dos capitães-mores,19
um homem só pode administrar, legislar e julgar a contento das populações sertanejas? (…)
Peguemos o chefe político, agitemo-lo no ar e berremos o estribilho com que a imprensa, há tempos, nos anda a amolar —
A Constituição da República precisa de uma revisão.22
Graciliano Ramos. Linhas Tortas [artigo de março de 1915]. In: Linhas Tortas. Rio de Janeiro: Record, 1976, 4.ª edição, p. 9-10 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto anteriormente apresentado — de Graciliano Ramos —, assinale a opção correta.
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A Segundo o autor do texto, o “industrial insatisfeito” (R.15) é vítima de um sistema político com vícios, no qual muitas autoridades sem vocação para administrar eficientemente o país mandam ao mesmo tempo.
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B O escritor declara-se “pouco exigente” (R.2) e, desse modo, estaria pronto para aceitar qualquer Constituição, desde que estivessem garantidos direitos aos funcionários governamentais mais humildes e à “confederação cinematográfica” (R.19) que pretende fundar.
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C O autor do texto indica que o “quarto poder” é constituído pela figura indeterminada do “chefe político” (R.8 e 21), que é um tipo mandão e presente em diversos segmentos da sociedade, como, por exemplo, o dos advogados e o dos comerciantes.
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D Graciliano Ramos comenta que o Poder Judiciário apresenta problemas de natureza constitucional ainda mais sérios do que o Poder Executivo e o Poder Legislativo, uma vez que o Poder Judiciário mantém vínculo forte com o “quarto poder” (R. 4-5).
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E O articulista vale-se de uma “escala descendente” (R.9), para mostrar que há funcionários “de atribuições indeterminadas, mas ilimitadas” (R.6) em todos os níveis, do mais baixo ao mais alto, e que eles formam o que se convencionou chamar de “lagoa republicana” (R.17).