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Padrão de Resposta
O Brasil foi um dos poucos países latino-americanos a enviar tropas e a participar militarmente da II Guerra Mundial. A escolha pela participação, no entanto, não foi de cunho ideológico, tendo sido fruto de uma estratégia de desenvolvimento nacional em estreita ligação com a condução da política externa. Os objetivos brasileiro eram os de promover a industrialização interna, principalmente por meio da instalação de uma siderúrgica; reequipar suas Forças Armadas e maximizar sua projeção internacional, no contexto do pós-guerra, de modo a aumentar o próprio poder de barganha. Se os dois primeiros objetivos lograram êxito, o mesmo não pode ser dito sobre o terceiro, cujo resultado foi ambivalente, mas, diante das expectativas, frustrante.
A política externa conduzida na década de 1930, denominada por Gerson Moura de “equidistância pragmática” é prova de que a posterior decisão de juntar-se ao esforço de guerra dos Aliados foi puramente estratégica. Entre 1933 e 1939, o Brasil buscou manter relações comerciais estreitas tanto com os EUA quanto com a Alemanha nazista. A falta de divisas do Brasil estimulou o comércio sob marcos de compensação com os alemães (1936), que também encontravam-se com poucas reservas internacionais. Por outro lado, o comércio com os EUA também era intenso (Acordo – 1935), e as relações políticas favorecidas pela política de Boa Vizinhança, inaugurada por Roosevelt, e pelo temor de que, se alijado, o Brasil pendesse para os totalitarismos.
Apesar da inicial neutralidade brasileira e estadunidense, a eclosão da II Guerra tornou a estratégia equidistante do Brasil crescentemente inviável. O Bloqueio Atlântico dificultou o comércio com a Alemanha, e a eventual entrada dos EUA na guerra forçaram o governo Vargas a posicionar-se de forma mais definida. Após a Missão Aranha (1939) que renegociara algumas dívidas e da visita de Gois de Monteiro aos EUA, acordou-se o financiamento para a Companhia Siderúrgica Nacional e o reequipamento militar brasileiro pelo esquema de “lend and lease”.
Em troca, o Brasil oferece seu apoio à causa dos Aliados, inclusive na tentativa de persuadir os demais países sul-americanos, que por vezes pendiam mais para a causa alemã. Na III Conferência de Chanceleres, de 1942, Brasil e EUA tentam convencer países como Argentina e Chile a romper relações com o eixo, mas sem êxito. Com os ataques a Pearl Harbor e a entrada estadunidense na guerra, o Brasil percebe que, caso participasse do esforço militar, poderia, inclusive, maximizar seus ganhos no período pós-conflito, tendo sido o único país a apoiar os EUA e com eles estabelecendo suposta “relação especial”.
A efetiva contribuição militar foi uma exigência brasileira. Contrariamente aos desígnios ingleses de apenas utilizar bases aéreas no Nordeste brasileiro, Vargas demandou participação direta. A experiência da I Guerra revelara os ganhos que se podia obter ao compor o grupo dos vitoriosos em negociações pós-conflito. Assim, o Brasil envia a Força Expedicionária Brasileira, que luta na península itálica, a FAB ocupa-se da proteção costeira, e as bases aéreas do Nordeste contribuíram para os esforços ingleses e americanos na África.
Findo o conflito, o Brasil via o momento de colher os esperados frutos em prestígio e projeção internacionais. Quando Vargas encontrara Roosevelt, em Natal (1943), este lhe prometeu um lugar de destaque na nova organização multilateral que iria substituir a LdN. Com efeito, o Presidente americano propõe a inclusão do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança, mas vê sua sugestão obstruída pela Inglaterra e pela URSS. Quando Cyro Freitas-Valle assina a Carta de São Francisco, em 1945, portanto, o Brasil adere à Organização das Nações Unidas sem receber a posição de destaque que esperava. Freitas-Valle, ciente do malogro da estratégia adotada por Artur Bernardes na tentativa de conquistar assento permanente no Conselho Executivo da LdN, em 1926, opta por uma tática menos intransigente. Busca reformar o Conselho da ONU, nos primeiros anos, mas percebe a inviabilidade de seu pleito diante do acirramento da bipolaridade entre EUA e URSS. No âmbito da ONU, desse modo, mantém-se o alinhamento aos estadunidenses, mas conquista-se apenas o direito de inaugurar os debates da Assembleia Geral, que se consolida na década de 1950.
A suposta “relação especial” que a participação na Guerra teria garantido ao Brasil junto aos EUA mostra-se, igualmente, uma frustração de expectativas. Os estadunidenses, mais preocupados em conter o avanço soviético sobre a Europa e a Ásia no contexto de pós-guerra, relegam a América Latina, em geral, e o Brasil, em particular, a segundo plano. Incipientes medidas de auxílio, como a Missão Abbink, a Comissão Mista e o Acordo Militar de 1952 denotam o mito dos laços de amizade especial, e, após a posse do Republicano Eisenhower, até mesmo as minguadas ações de assistência cessam. Para os americanos, a América Latina era vista somente em termos de segurança, o que foi fortemente prejudicial para o projeto desenvolvimentista do Brasil no período.
No plano externo, o final da II Guerra teve como principal consequência a significativa perda do poder de barganha brasileiro na arena internacional. O fato de que o governo Dutra, imediatamente posterior ao fim do conflito, fosse ferrenhamente anticomunista (rompendo, inclusive, relações com a URSS), apenas contribuiu para a deterioração da posição negociadora nacional frente ao bloco ocidental desenvolvido.
A participação militar brasileira na II Guerra levou a ganhos estratégicos, como o financiamento de uma siderúrgica nacional e o reequipamento das Forças Armadas. Entretanto, o objetivo de ter participação destacada na nova ordem internacional ficou muito aquém do esperado e, em decorrência da eclosão da Guerra Fria, o poder de barganha do Brasil viu-se drasticamente reduzido, afetando negativamente o projeto desenvolvimentista e desconstruindo o mito da relação especial com os EUA.