Discorra sobre a crise política de 1954, que marcou a República Liberal (1946–1964).
1. Extensão máxima: 60 linhas
2. Valor: 20,00 pontos
Discorra sobre a crise política de 1954, que marcou a República Liberal (1946–1964).
1. Extensão máxima: 60 linhas
2. Valor: 20,00 pontos
Historiadores como Daniel Aarão Reis Filho argumentam que o varguismo, como fenômeno político, não terminou com o suicídio de Getúlio Vargas, em 24/8/1954, mas dez anos depois, com a Ditadura Civil-Militar. De fato, a crise de 1954 enquadra-se no contexto maior de polarização da sociedade brasileira, em ambiente genuinamente democrático e de transformações estruturais de um país eminentemente rural e agrário-exportador, para uma sociedade urbana, complexa e industrializada.
Desde a nova ascensão de Vargas ao Catete, em 1950, ficou evidente que o governo não seria tranquilo, em termos políticos, como fora a gestão do Gen. Dutra. De fato, este empreendeu uma política conservadora, no âmbito interno, e de “alinhamento automático” (Gerson Moura) aos EUA, na política externa. Embora apoiado pelo PSD – e pelo próprio Vargas -, Dutra também tinha apoio da UDN e, portanto, maioria folgada no Congresso Nacional, o que lhe garantia a estabilidade política.
O mesmo não ocorreu no governo Vargas. Getúlio foi eleito pela aliança PSD-PTB, partidos que, em termos ideológicos não se assemelhavam: o PSD tinha base agrária e conservadora, e o PTB era fruto da “Invenção do Trabalhismo” e do Queremismo que se seguiu ao final da Ditadura do Estado Novo. A base do partido, portanto, eram os trabalhadores urbanos. Do outro lado do espectro político havia a UDN, de base urbana de classe média conservadora, cujo líder era Afonso Arinos de Melo Franco, um dos subscritores do Manifesto dos Mineiros, que pediu a redemocratização do país. Houve, portanto, oposição ferrenha da UDN ao novo governo de Vargas.
A oposição político-partidária tinha causas mais profundas, as quais são fundamentais para entender a crise de 1954. No âmbito externo, o fim da 2ª Guerra Mundial logo conformou o contexto bipolar entre EUA e URSS. O Brasil, nesse contexto, alinhou-se, indiscutivelmente, ao bloco capitalista. Embora a opção socialista fosse inviável, ela constituía pretexto para desestabilizar o regime, mesmo com o Partido Comunista na ilegalidade desde 1947. Outro foco desestabilizador externo era o regime peronista na Argentina. A oposição enfatizava a “semelhança” entre os regimes, embora Vargas tivesse recusado um Pacto ABC com Perón. Evidência da preocupação com essa aliança suposta foi a acusação de João Neves da Fontoura de que Vargas queria criar uma República Sindicalista no Brasil.
No âmbito interno, a polarização do Congresso Nacional, entre nacionalistas, os quais eram partidários de maior autonomia do Estado frente aos EUA, e os liberais (“entreguistas”), mais favoráveis ao alinhamento com Washington, refletia-se no âmbito militar, sugestivamente alcunhado de “poder desestabilizador”, por José Murilo de Carvalho. Ora, o termômetro dos ânimos militares era as eleições do Clube Militar, onde havia forte oposição entre militares nacionais e liberais. A publicação de artigo, no Clube Militar, defendendo a não participação brasileira na Guerra da Coreia acirrou os ânimos dos militares mais liberais. Vargas buscou acalmar os ânimos escolhendo como Ministro da Guerra Estilac Leal, de índole nacionalista, que fora eleito presidente do Clube Militar.
Vários episódios evidenciaram a polarização e a perda de apoio de Vargas no âmbito do Congresso Nacional. Os mais importantes foram o Acordo Militar com os EUA (1952) e a criação da Petrobras (1953). Os projetos foram aprovados, porém evidenciavam o uso político para desestabilizar o governo. O ultimato dos generais militares, pedindo a renúncia de Vargas, na esteira do aumento do salário mínimo e das crises como o atentado da rua Toneleros indicam o desfecho trágico da crise política de 1954.
Os episódios políticos que ocorreram durante o segundo governo Vargas demontram forte oposição de interesses na sociedade, no Congresso e no âmbito militar. Esses interesses conflitantes emergiam não somente da urbanização e da industrialização do país, mas também do cenário internacional e da razão propagandística do conflito Leste-Oeste, apesar de o Brasil estar evidentemente do lado capitalista. Essa polarização seria acirrada no restante da República Liberal, levando ao golpe de 1964 e ao alijamento da esquerda.
Historiadores como Daniel Aarão Reis Filho argumentam que o varguismo, como fenômeno político, não terminou com o suicídio de Getúlio Vargas, em 24/8/1954, mas dez anos depois, com a Ditadura Civil-Militar. De fato, a crise de 1954 enquadra-se no contexto maior de polarização da sociedade brasileira, em ambiente genuinamente democrático e de transformações estruturais de um país eminentemente rural e agrário-exportador, para uma sociedade urbana, complexa e industrializada.
Desde a nova ascensão de Vargas ao Catete, em 1950, ficou evidente que o governo não seria tranquilo, em termos políticos, como fora a gestão do Gen. Dutra. De fato, este empreendeu uma política conservadora, no âmbito interno, e de “alinhamento automático” (Gerson Moura) aos EUA, na política externa. Embora apoiado pelo PSD – e pelo próprio Vargas -, Dutra também tinha apoio da UDN e, portanto, maioria folgada no Congresso Nacional, o que lhe garantia a estabilidade política.
O mesmo não ocorreu no governo Vargas. Getúlio foi eleito pela aliança PSD-PTB, partidos que, em termos ideológicos não se assemelhavam: o PSD tinha base agrária e conservadora, e o PTB era fruto da “Invenção do Trabalhismo” e do Queremismo que se seguiu ao final da Ditadura do Estado Novo. A base do partido, portanto, eram os trabalhadores urbanos. Do outro lado do espectro político havia a UDN, de base urbana de classe média conservadora, cujo líder era Afonso Arinos de Melo Franco, um dos subscritores do Manifesto dos Mineiros, que pediu a redemocratização do país. Houve, portanto, oposição ferrenha da UDN ao novo governo de Vargas.
A oposição político-partidária tinha causas mais profundas, as quais são fundamentais para entender a crise de 1954. No âmbito externo, o fim da 2ª Guerra Mundial logo conformou o contexto bipolar entre EUA e URSS. O Brasil, nesse contexto, alinhou-se, indiscutivelmente, ao bloco capitalista. Embora a opção socialista fosse inviável, ela constituía pretexto para desestabilizar o regime, mesmo com o Partido Comunista na ilegalidade desde 1947. Outro foco desestabilizador externo era o regime peronista na Argentina. A oposição enfatizava a “semelhança” entre os regimes, embora Vargas tivesse recusado um Pacto ABC com Perón. Evidência da preocupação com essa aliança suposta foi a acusação de João Neves da Fontoura de que Vargas queria criar uma República Sindicalista no Brasil.
No âmbito interno, a polarização do Congresso Nacional, entre nacionalistas, os quais eram partidários de maior autonomia do Estado frente aos EUA, e os liberais (“entreguistas”), mais favoráveis ao alinhamento com Washington, refletia-se no âmbito militar, sugestivamente alcunhado de “poder desestabilizador”, por José Murilo de Carvalho. Ora, o termômetro dos ânimos militares era as eleições do Clube Militar, onde havia forte oposição entre militares nacionais e liberais. A publicação de artigo, no Clube Militar, defendendo a não participação brasileira na Guerra da Coreia acirrou os ânimos dos militares mais liberais. Vargas buscou acalmar os ânimos escolhendo como Ministro da Guerra Estilac Leal, de índole nacionalista, que fora eleito presidente do Clube Militar.
Vários episódios evidenciaram a polarização e a perda de apoio de Vargas no âmbito do Congresso Nacional. Os mais importantes foram o Acordo Militar com os EUA (1952) e a criação da Petrobras (1953). Os projetos foram aprovados, porém evidenciavam o uso político para desestabilizar o governo. O ultimato dos generais militares, pedindo a renúncia de Vargas, na esteira do aumento do salário mínimo e das crises como o atentado da rua Toneleros indicam o desfecho trágico da crise política de 1954.
Os episódios políticos que ocorreram durante o segundo governo Vargas demontram forte oposição de interesses na sociedade, no Congresso e no âmbito militar. Esses interesses conflitantes emergiam não somente da urbanização e da industrialização do país, mas também do cenário internacional e da razão propagandística do conflito Leste-Oeste, apesar de o Brasil estar evidentemente do lado capitalista. Essa polarização seria acirrada no restante da República Liberal, levando ao golpe de 1964 e ao alijamento da esquerda.