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Padrão de Resposta
O governo de Eurico Gaspar Dutra teve lugar em período de grandes alterações sistêmicas, tanto no âmbito interno como no âmbito externo. No governo Vargas, o Brasil alinhou-se aos Estados Unidos, participando de forma ativa na Segunda Guerra Mundial, o que lhe proporcionou projeção no cenário regional e internacional. Em razão disto, o país também participou das conferências internacionais que formaram a ordem internacional posterior, e na qual já se anunciava a conformação da dinâmica da Guerra Fria. No plano interno, a incongruência entre a ditadura de Vargas e a luta pela democracia contra as potências do Eixo levou à redemocratização do país, consubstanciada na eleição de Dutra e na promulgação da Constituição de 1946.
Uma das principais características da ordem do pós-guerra foi a consolidação dos Estados Unidos como potência mundial, líder do mundo livre. O Brasil, em razão da sua aliança estratégica com a superpotência durante a guerra, decidiu-se pela manutenção do alinhamento que, entretanto, não gerou recompensas para o país. No pós-guerra, a América Latina e o Brasil passaram a ocupar lugar secundário na agenda americana, que volta sua diplomacia e seus recursos econômicos para a Europa e para a Ásia. Apesar do ponto IV de Truman apontar para possível cooperação, esta não se efetivou em termos substanciais. No Brasil, a Missão Abbink ficou aquém do esperado, gerando parcos resultados na Comissão Mista Brasil-Estados Unidos já no governo Vargas. A orientação americana passa a ser de que os recursos para o desenvolvimento deveriam advir da iniciativa privada, e para atraí-los, os países periféricos deveriam promover política econômica liberal. Conquanto tenha insistido na noção de uma aliança especial com os Estados Unidos, o Brasil também envidou esforços de inserção na ordem liberal nesse momento, sendo que nenhuma das iniciativas ensejou os resultados esperados.
No plano econômico, o governo Dutra busca alinhar as políticas brasileiras ao liberalismo proposto pelos Estados Unidos. No plano interno, isto se coaduna com o processo de urbanização e desenvolvimento industrial, que fortalece uma classe social cujos interesses se harmonizam com o liberalismo. Nesse sentido, a política externa de Dutra mantém o compromisso assumido na Conferência de Bretton Woods de manutenção do câmbio valorizado e de livre comércio, o que é possível graças à ilusão de divisas provenientes da guerra, mas que não perdura em todo seu governo. Em face dos amplos déficits há reversão dessa política ainda que sem a retirada do compromisso internacional. Durante o governo Dutra também é negociado o GATT e a frustrada criação da OIC, ocasião em que o Brasil novamente se alinha aos interesses ocidentais. Entretanto, já nesse período começa o desenvolvimento de posições mais autônomas no âmbito econômico, como demonstram as manifestações reivindicando ajuda ao desenvolvimento e a criação da CEPAL no âmbito da ONU, apesar das manifestações contrárias americanas.
A ONU foi a indicação mais forte da crescente importância do multilateralismo na ordem internacional, tendo o Brasil prontamente se engajado nesse âmbito. O Brasil participa ativamente da Conferência de São Francisco por meio de sua delegação chefiada por Cyro Freitas do Valle, buscando influenciar a configuração do sistema onusiano. Apesar de não ter conseguido assento permanente no Conselho de Segurança, é eleito membro rotativo do órgão. Ademais Oswaldo Aranha tem participação destacada na organização, presidindo a primeira Assembleia Geral. Já nesse momento, o Brasil se mostra engajado no multilateralismo, enquanto tenha adotado política de alinhamento aos Estados Unidos e aos países europeus, votando sempre de acordo com esses países nas resoluções da Assembleia Geral. Esse fator está relacionado à auto-percepção brasileira enquanto país ocidental capitalista que deveria agir de acordo com esse bloco. Nesse sentido, o país apoia o colonialismo europeu, o que causa estranhamento em razão do seu passado colonial. Por outro lado, também nesse âmbito já há indicação de defesa do interesse nacional, como mostram as iniciativas que buscam reforçar o ECOSOC e também as preocupações do país com a questão da tecnologia nuclear.
Um dos fatores primordiais da política externa brasileira de Dutra foi o combate ao comunismo, o que teve relação com fatores internos e externos. O anti-comunismo ferrenho de Dutra levou o presidente a romper as relações recentemente restabelecidas com a União Soviética e a colocar o partido comunista brasileiro na ilegalidade, cassando seus membros que haviam sido eleitos. Essa política foi além da recomendação americana, demonstrando a aversão interna à ameaça comunista e a busca da identificação com o Ocidente Capitalista. Tratava-se de questão de segurança nacional, linha que foi de orientação tanto da política interna como da externa.
No âmbito regional, o governo Dutra também buscou uma política orientada pelo alinhamento aos Estados Unidos, visto como fator de prestígio, e pela luta contra o comunismo. Desde a conferência de Chapultepec, o Brasil busca liderar esforços latino-americanos de colaboração com os Estados Unidos dentro de um novo sistema internacional, tendo inclusive defendido a extensão de convite à Argentina para a Conferência de São Francisco. O Brasil busca posição d intermediação dos Estados Unidos com a América Latina novamente ao sediar a conferência que ensejou a criação do TIAR em 1947. Nessa conferência já pode ser notada preocupação quanto à ameaça comunista, a qual orienta as relações intercontinentais por longo tempo. Também é criada a OEA em 1948, sob a liderança dos Estados Unidos, garantindo a influência preponderante desse país sobre todo o continente. O conflito leste-oeste, que se acirra no momento, domina a pauta da política externa brasileira, ao contrário do que ocorre na Argentina que, apesar de aderir ao TIAR, adota posição mais autônoma em outros temas e busca desvencilhar-se da influência americana em temas econômicos, por exemplo. No Brasil esse conflito é associado à crescente divisão da sociedade entre entreguistas e nacionalistas, a qual se acirra ao longo da República Democrática e contribui para o cenário do golpe civil-militar de 1964.
A política externa brasileira no governo Dutra foi marcada pelo alinhamento aos Estados Unidos e ao Ocidente, o que perdurou até a Política Externa Independente. As expectativas iniciais brasileiras de ganhos de prestígio e de auxílio ao desenvolvimento frustraram-se, apesar da percepção inicial de que o Brasil estava bem posicionado no pós-guerra, em razão da sua atuação no conflito. A aliança com os Estados Unidos não gerou os benefícios esperados, conforme apontou o memorando da frustração do chanceler Raul Fernandes. No âmbito regional e multilateral, a experiência que o Brasil adquiria na participação em foros internacionais possibilitou o desenvolvimento de expertise diplomática, a qual foi bem aproveitada em períodos posteriores.