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Padrão de Resposta
Os anos de 1920 assinalam a crise do arranjo oligárquico que havia sustentado a Primeira República. Em função das dissidências oligárquicas, do avanço do tenentismo e do salvacionismo militar, a Política dos Governadores arquitetada por Campo Sales entrou em crise. Esses fatores possibilitariam a constituição da Aliança Liberal e a queda de Washington Luís, tendo como estopim o assassinado do vice de Getúlio Vargas, João Pessoa, da Paraíba. Finalmente, é preciso destacar que a crise de 1929 também se destaca como elemento desestabilizador do modelo econômico agroexportador que sustentou o regime oligárquico de 1889 até 1930.
A crise da Política dos Governadores concorreu para a crise da Primeira República. Campos Sales arquitetou um esquema política que reduzia as discordâncias entre a União e os Estados e favorecia a alternância das oligarquias no poder, sobretudo de Minas Gerais e São Paulo. No contexto do voto aberto, os partidos acionavam a máquina eleitoral com vistas a assegurar as sucessões oligárquicas, processo no qual se destaca a figura dos coronéis no âmbito local e das trocas de favores. Deve-se ressaltar, todavia, que, devido às dissidências oligárquicas, esse processo de alternância foi desafiado de forma sistemática, principalmente nas eleições de Hermes da Fonseca, em 1910, de Artur Bernardes, em 1922 e de Júlio Prestes, em 1930. Mesmo do ponto de vista institucional, o ideal da política dos governadores foi questionado, como ficou claro com a fundação do Partido Democrático em São Paulo, em 1926, que desafiava a hegemonia do Partido Republicano Paulista. As dissidências políticas seriam fundamentais para a fundação da Aliança Liberal no contexto das eleições de 1930 e seu desfecho.
A ideologia tenentista e o salvacionismo militar também se inserem no rol de fatores que levariam ao início da Era Vargas. Nas acirradas eleições de Artur Bernardes, em 1922, foi expressiva a manifestação dos tenentes em desfavor das oligarquias. O movimento dos dezoito do forte insere-se nesse contexto de protesto. Os tenentes, além da forte retórica oligárquica, apresentavam forte caráter nacionalista e autoritário. O movimento ganharia notoriedade com a Coluna Preste, que percorreria o território nacional e daria maior visibilidade ao ideário tenentista. Com o tenentismo, passava-se a considerar o recurso à força como mecanismo de mudança política. Igualmente, surgia a ideia do salvacionismo militar, isto é, de que caberia ao Exército o dever moralizante, mesmo que fosse necessário recorrer às armas. O movimento tenentista foi tão expressivo que Artur Bernardes governou durante quase todo seu mandato em estado de sítio. Fortalecia-se, assim, a crença de que a participação do exército seria imprescindível para o fim do regime oligárquico.
O contexto eleitoral de 1920 foi o estopim que levou ao colapso da Primeira República. Washington Luís, em detrimento dos mineiros, escolheu Júlio Prestes para sucedê-lo como candidato – um paulista considerado estratégico para os planos valorizadores do café. Como resultado, as cisões oligárquicas aprofundaram-se. Fundou-se, nesse contexto, a Aliança Liberal que lança a candidatura de Getúlio Vargas, com o apoio de cisões do Partido Democrático de São Paulo, de parte de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul e da Paraíba. Ainda assim, mormente em função da máquina eleitoral do PRP, Júlio Prestes venceu as eleições de 1930. Todavia, o resultado das eleições é contestado. O pretexto encontrado foi o assassinato de João Pessoa, vice de Getúlio que foi transformado em mártir. Em resposta. Getúlio articulou-se às Forças Armadas, apoiado no ideário tenentista e no salvacionismo, disposto a tomar o poder pela força na suposta Batalha de Itararé, que nunca ocorreu. Como resultado, o regime oligárquico recebeu seu golpe fatal.
Por fim, cabe menção à crise de 1929. Como pontuou Celso Furtado, a crise de 1929 expôs a fragilidade da economia agroexportadora e dos planos de valorização artificial do café, que eram a base econômica de sustentação do regime. Os planos valorizadores, os empréstimos internacionais para mantê-los e para consolidar a dívida – a exemplos do “funding loan” – e as desvalorizações cambiais garantiam a renda dos cafeicultores, mas também promoviam a socialização das perdas e os avanços da inflação, o que reduzia a qualidade de vida das camadas médias urbanas. A crise de 1929 acentuou a descrença no modelo agroexportador e contribuía para a difusão dos ideários anti-oligárquicos.
Um balanço geral indicaria que um intricado rol de fatores concorreu para a crise do sistema oligárquico que caracterizou a Primeira República. Estão entre eles a crise da Política dos Governadores, as cisões e dissidências oligárquicas, o avanço do tenentismo e do salvacionismo militar e a crise de 1929. Esses fatores, somados ao contexto eleitoral de 1930 e ao assassinado de João Pessoa, levaram ao fim do regime oligárquico que, entre avanços e recuos, vigorou entre os anos de 1889 e 1930. (766 palavras)