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O sistema eleitoral do Império continha inúmeros problemas que possibilitaram fraudes e a tendência à criação de Parlamentos hegemônicos com baixa participação da oposição. As reformas eleitorais não conseguiram resolver esses dois grandes problemas, em grande parte.
As eleições no Segundo Reinado, desde o início, foram caracterizadas por fraudes e por mecanismos de coerção, conforme ocorreu já nas primeiras eleições após o golpe da Maioridade, que ficaram conhecidas como “eleições do cacete”. Desde esse episódio, ficou claro que seria o Poder Moderador o responsável por arbitrar as disputas intraelites, pois o Imperador, após as denúncias generalizadas de fraude, derruba o gabinete liberal e institui um conservador. É certo, porém, que desde a década de 1840, houve tentativas de aperfeiçoamento do sistema eleitoral. Em 1846, reforma aumenta os requisitos de renda dos votantes de 100$000 para 200$000, medida que deveria limitar o número de votantes mas que acaba sendo inócua em razão dos efeitos corrosivos da inflação.
Mesmo com a atuação do Poder Moderador no arbitramento de conflitos intraelite, fato é que desde o Tempo Saquarema, verificou-se tendência de hegemonia de um partido no Parlamento em razão do sistema de voto em Listas. A hegemonia saquarema, nesse sentido, dar-se-á por um lustro com a quase ausência de parlamentares liberais no Parlamento imperial. Essa situação representava um problema porque a incapacidade de a oposição chegar ao poder poderia levar a que elites recorressem a outros métodos, como o fizeram em 1942, quando liberais se insurgiram em Minas Gerais e São Paulo após a derrubada dos liberais pelo Imperador. Nesse sentido, o Marquês do Paraná formou o Gabinete da Conciliação, com a presença tanto de conservadores quanto de liberais, e instituiu duas mudanças fundamentais que extinguiram o voto em lista. Por um lado, o estabelecimento do vito distrital permitiu que políticos das localidades não articulados nacionalmente pudessem eleger-se ao Parlamento. Por outro, a instituição das inelegibilidades dificultou o uso da influência que os magistrados tinham para reeleger-se indefinidamente. Essas duas mudanças permitiram o aumento do número de profissionais liberais e de oligarquias locais no Parlamento, o que significou uma ascensão dos Liberais, que a partir de 1962 conquistaram o Gabinete e, aliando-se a certos conservadores moderados, instituíram a Liga Progressista.
Essas mudanças do gabinete da Conciliação não resolveram a longo prazo, porém, o problema da hegemonia de um partido no Parlamento. Durante o Gabinete do Visconde do Rio Branco, portanto, este instituiu a Lei do Terço, que separava 1/3 da Legislatura a candidatos oposicionistas. Essa medida por certo possibilitou alguma diversidade no Parlamento Imperial, mas não foi acompanhada de ações que visassem a eliminar o problema estrutural das fraudes eleitorais, que perpassaram todo o Segundo Reinado. Um Gabinete Liberal buscou tratar essa questão em 1881; a Lei Saraiva, nesse sentido, recorreu a maior seletividade do eleitor, por meio da instituição do censo literário. Diferentemente da Lei de 1846, essa medida não poderia ser inutilizada pela ação corrosiva da inflação; de fato ela foi capaz de reduzir consideravelmente o número de eleitores que passou de 10% para cerca de 1% da população. Além disso, a Lei Saraiva extinguiu o sistema de duas fases, eliminando a diferenciação entre votantes. O argumento dessa lei estava fundado na suposição de que eleitores com alguma educação seriam menos propensos a fraudes eleitorais.
As reformas eleitorais não lograram corrigir as amplas fraudes nem o problema da renovação e circulação de políticos no Parlamento, renovação que em grande medida continuou sendo gerida pelo Poder Moderador. Além disso, a reforma final instituiu a exclusão do analfabeto do eleitorado, medida que perduraria no período republicano.