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Padrão de Resposta
O surgimento do movimento integralista no Brasil baseou-se em processos político-econômicos domésticos e internacionais. De natureza autoritária, aproveitou-se da insatisfação popular, sobretudo nas camadas médias urbanas, com as tradicionais oligarquias rurais e as estruturas fraudulentas da Primeira República. A ascensão de Vargas, em 1930, permitiu a consolidação da Ação Integralista Brasileira e a aproximação entre o governo central e membros integralistas. Internacionalmente, havia um claro arrefecimento da influência das democracias liberais, especialmente após a crise de 1929. O movimento brasileiro, contudo, não se equivaleu aos movimentos nazifascistas europeus. Em comum, o discurso autoritário e a lógica militarista. É pertinente, portanto, analisar as características da doutrina integralista brasileira, o contexto de sua fundação e a aproximação e ruptura com o governo Vargas.
“Deus, pátria e família”. Esse era o lema da AIB. Assim, como o nazismo alemão e o fascismo italiano, buscou legitimação política invocando temas religiosos e buscando apoio da Igreja. Outra semelhança estava na exaltação da pátria, considerada o elo de união de toda a sociedade. Dessa forma, rejeitaram a luta de classes, visto que ela constituiria uma ameaça à unidade nacional (daí o uso da letra grega sigma, de “soma”). O integralismo brasileiro, todavia, não foi uma transposição acrítica do nazifascismo europeu para os trópicos. A AIB rejeitava o antissemitismo, conquanto parte de seus membros tivessem apoiado a movimentos europeus. Paralelamente, valorizavam o caráter mestiço do povo brasileiro. Além disso, aqui não havia ideal expansionista. O corpo da pátria era tido como consolidado, o que também a diferenciava dos movimentos europeus. Por fim, a lógica militarista, com o uso de uniformes, por exemplo, decorre da força e articulação crescente das forças armadas na política nacional. Todas essas características devem, enfim, ser contextualizadas no tempo e no espaço.
A AIB foi fundada no início da década de 1930, e seu principal líder foi Plínio Salgado. No Brasil, o surgimento do integralismo enquadra-se em um contexto de crescimento das camadas médias urbanas e de frustração com um modelo político criado por e para as oligarquias rurais. Nesse sentido, parte dos princípios da AIB foram consolidados por diferentes grupos ainda na década de 1920. Em 1922, no contexto da eleição de Artur Bernardes e do centenário da independência, os tenentes e os modernistas inauguraram uma onda de críticas organizadas contra o modelo oligárquico. No caso dos 18 do forte, militares retomavam o salvacionismo de Hermes e visavam à criação de um regime sem corrupção e centralizado. Os modernistas, por sua vez, criticavam a estética artística oficial e buscavam uma nova identidade nacional. Plínio Salgado esteve entre os modernistas. O Verde-Amarelismo e a Escola da Anta foram precursores ideológicos da AIB.
A ascensão de Vargas, em 1930, representou a vitória do modelo centralizador tenentista, conquanto possibilitada pela ação do alto oficialato militar e das oligarquias dissidentes. A crise de 1929 enterrou as últimas utopias liberais, levando à reformulação do papel do Estado na economia. Na Itália, o fascismo já havia logrado tomar o poder em 1922. Em 1933, Hitler foi escolhido como primeiro-ministro alemão. Nos EUA, embora não tenha ocorrido um governo autoritário nos moldes fascistas, Franklin D. Roosevelt retomava o crescimento econômico com o seu “New Deal” de caráter estatizante e intervencionista. Finalmente, na Argentina, se inaugurava a “década infame”, com militares como Uriburu e Augustín Justo no poder.
No Brasil, os primeiros grandes movimentos de massa surgiram na década de 1930. A AIB, de inspiração fascista, e a ANL (Aliança Nacional Libertadora), de viés socialista, ganhavam força entre as camadas médias urbanas. Representavam, em última instância, o deslocamento da influência política da zona rural para os grandes centros urbanos. Vargas, reconhecendo esse fenômeno, consolidou seu projeto de poder com o apoio dessas massas. Sua ênfase na importância da indústria e na valorização do proletariado (no que Ângela de Castro Gomes chamou de “a invenção do trabalhismo”) demonstram essa dinâmica. A AIB, portanto, foi uma das bases de sustentação de Vargas até 1937.
Já no início do governo provisório, Getúlio Vargas demonstrava seus anseios por um regime centralizado ao redor de sua pessoa. Em 1931, aprovou o Código das Interventorias e extinguiu a Delegacia do Norte, então comandada por Juarez Távora. Ambas as medidas visavam a mitigar a influência dos tenentes sobre seu governo. Com a AIB, não seria diferente. Vargas utilizou o movimento integralista para validar o golpe do Estado Novo, mas abandonou-o logo em seguida. Em 1935, foi aprovada a lei de Segurança Nacional. Em seguida, houve uma tentativa de golpe por parte de integrantes da ANL, então liderada por Luís Carlos Prestes. A Intentona Comunista, como ficou conhecida, permitiu que Vargas fortalecesse a repressão contra os comunistas e estreitasse relações com a AIB. Vale ressaltar que, de acordo com a Constituição de 1934, mandato de Vargas terminaria em 1938. Conquanto Getúlio apoiasse informalmente José Américo para sucessão, Plínio Salgado aproveitou-se desse momento conturbado para ganhar capital político a nível nacional.
Em 1937, a sombra do comunismo foi mais uma vez utilizada por Vargas para centralizar o poder em suas mãos. Havia vazado o “Plano Cohen”, suposto esquema comunista para a tomada do poder à força. O plano, forjado pelo militar Olímpio Mourão Filho, nada mais era que uma simulação, portanto fictícia, de um possível golpe comunista no Brasil. Vargas, apoiado pelos integralistas, soube utilizar a repercussão do caso, crido como verdadeiro pela opinião pública, para decretar o estado de sítio e efetivar o golpe do Estado Novo. Plínio Salgado aprovou a ação, visto que almejava o posto de ministro da educação no novo regime. Não esperava, contudo, que Vargas atacaria todas as bases partidárias, inclusive a AIB.
O Estado Novo inaugurou um período de governo autoritário, repressivo e personalista no Brasil. Vargas tornava-se um ditador. Com o objetivo de fomentar o patriotismo e impedir desavenças políticas, proscreveu todos os partidos políticos até então existentes. Além disso, efetivou a queima das bandeiras estaduais representando a força do governo central e a unidade nacional. A AIB também foi proibida, o que levou ao rompimento do movimento com o governo. Crescentemente alijados do jogo político, um grupo de integralistas tentou dar um golpe contra Vargas, por meio de um atentado contra o palácio do Catete. O Putsch integralista de 1938, fracassado, foi a última ação coordenada oficial do movimento integralista no Brasil, antes de seu aniquilamento definitivo. A influência de suas ideias, porém, persiste até os nossos dias.
O integralismo brasileiro correspondeu a uma tentativa de formalização do ideal salvacionista por meio da ação política organizada. Correspondeu, a seu modo, a uma visão de movimentos autoritários que se difundiam por todo o mundo. A decadência da democracia liberal e a expansão das camadas urbanas, no Brasil, levou ao fim do modelo oligárquico e rural. Vargas soube como ninguém se aproveitar dessa dinâmica, utilizando taticamente o apoio da AIB para a consecução de seu projeto centralizador. Os ideais integralistas e sua lógica militarista, todavia, não foram extintos. A fragilidade da democracia e o fortalecimento das forças armadas nacionais ainda são dinâmicas presentes na vida brasileira contemporânea.