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Os conflitos pelo território do hoje Uruguai remetem ao século XVII, com a fundação de Sacramento, e só tiveram uma solução definitiva em 1828, com o fim da Guerra da Cisplatina, na qual foi determinada a independência uruguaia. A guerra foi antecedida, contudo, pelos conflitos decorrentes da reorientação expansionista que Dom João assumiu ao chegar ao Brasil.
Desde 1777, com Santo Idelfonso, a Banda Oriental, incluindo Sacramento, estava em poder da Espanha. A expansão napoleônica na Europa forçou a transmigração da Corta Portuguesa ao Brasil, depois da invasão de Junot, acertada com a Espanha. Contudo, quando Napoleão prende o Rei Espanhol Fernando VII e seu pai, colocando um Bonaparte no trono espanhol, inicia-se uma guerra civil, em que a Espanha insurreta não é mais inimiga de Portugal.
A primeira incursão portuguesa na Banda Oriental ocorre em 1811. No ano anterior, o Vice-Reino do Prata decretara o cabildo aberto. O comando do Vice-Reino fora transferido para o governador Elío, de Montevidéu, com instruções para que pedisse ajuda ao Império português para conter as revoltas. Elío solicita apoio de Dom João para sufocar o levante de Artigas, apoiado pelas Províncias Unidas; Carlota Joaquina, irmã do Rei espanhol deposto, quer aproveitar-se da rebelião para expandir seu poder na região. No entanto, pressões de Lord Strangford e da Inglaterra, que, ao contrário da invasão de Caiena, não apoiavam o expansionismo português na Banda Oriental, dissuadem-na. Artigas chega ao poder.
A segunda invasão, em 1816, ocorre a pretexto de conter o republicanismo radical de Artigas, que tinha o projeto de aglomerar as províncias do antigo Vice-Reino do Prata em torno de si. Nesse momento, com a partida de Strangford, e com o fim das guerras napoleônicas, a Inglaterra tem menos poder de influência para deter Portugal. Os portugueses tomam Montevidéu em 1816 e ocupam a Banda Oriental completamente em 1812. Artigas, derrotado, vai buscar asilo no Paraguai, onde ficará até a sua morte.
Dom João determina a anexação da Banda Oriental. No entanto, tendo sido conclamado a voltar a Portugal pelas cortes da Revolução do Porto, deixa para Dom Pedro assinar o decreto que incorpora a Banda Oriental ao Brasil, com o nome de Cisplatina. Nas guerras independência, a Cisplatina, com forte presença militar portuguesa, é uma das províncias que oferece maior resistência, sendo pacificada apenas em 1823.
Como se sabe, Dom Pedro I, ora governante do Brasil, fecha a Assembleia Constituinte na Noite da Agonia, outorgando, em 1824, a primeira constituição brasileira, com a previsão do Poder Moderador.
A Província Cisplatina, que historicamente tinha maior proximidade cultural com as Províncias Unidas, subleva-se contra a Constituição autoritária. Os 33 orientales, comandados por Lavallejas, saem de Buenos Aires e tomam a Cisplatina, declarando a secessão do Império e a anexação às Províncias Unidas. É o começo da Guerra da Cisplatina, com a declaração de guerra do Império, depois que as Províncias Unidas confirmaram a anexação.
A guerra se estenderá de 1825 a 1828, sendo extremamente impopular no Brasil, ao contrário de nas Províncias Unidas, onde a guerra gerava algum entusiasmo da opinião pública. O Império Brasileiro apresentava, ao menos em teoria, superioridade naval, embora seus navios não fossem adequados para a navegação fluvial e haja havido acusações de incompetência da Marinha. De toda forma, o Brasil consegue estabelecer o bloqueio da Foz do Prata. Como reação, as Províncias Unidas começam a conceder cartas de corso aos navios de bandeira estrangeira.
A Batalha de Passo do Rosário, na qual as Províncias Unidas obtêm importante vitória, marca a impossibilidade brasileira de obter a vitória por terra e o encaminhamento da guerra para o impasse. Do outro lado, após a pequena derrota na Batalha de Juncal, a marinha imperial devasta a portenha na Batalha de Santiago.
O bloqueio do Prata gera estremecimentos com as potências europeias, que veem embargados seus objetivos comerciais na região. O episódio mais emblemático é o Caso Spark, no qual um navio norte-americano foi afundado pela marinha brasileira ao buscar furar o bloqueio. Em decorrência do episódio, as relações entre o Império e os EUA estiveram rompidas de 1827 a 1828.
À medida que se estendia o impasse militar, sem possibilidades de fim iminente, os dois lados vão se desgastando militar e economicamente. Em 1826, antevendo os custos de se prolongar o conflito, o presidente argentino Rivaldavia envia missão ao Brasil para negociar os termos da paz, com instruções secretas de, inclusive, aceitar a cessão da Cisplatina ao Império brasileiro. No entanto, a proposta de Rivaldavia acaba vazando em Buenos Aires, onde é tida por ultrajante, e ocasiona a deposição do presidente.
A Inglaterra já havia tentado uma primeira mediação em 1826, quando foi rechaçada pelo Brasil. À Inglaterra, grande potência comercial da primeira metade do século XIX, não interessava que os conflitos entre Brasil e as Províncias Unidas prejudicassem o comércio platino. Em 1828, é proposta novamente a mediação. Os dois países, já exauridos pela Guerra, aceitam a mediação de Lord Posomby. A solução final é a independência da Cisplatina, doravante Uruguai, “um algodão entre dois cristais”, nas palavras de Posomby. Pelo tratado provisório de 1828, Brasil, Argentina e Inglaterra se comprometem a ser fiadores da independência do novo país.
A guerra teve consequências desastrosas para o Império. Os esforços de guerra tiveram impacto negativo nas finanças públicas, já combalidas pelas dívidas da independência e pela limitação tarifária dos tratados desiguais. Em 1828, no Rio, houve um levante de mercenários irlandeses e alemães em virtude do atraso nos soldos. Ademais, as reclamações de indenização das potências europeias pelas perdas decorrentes do Bloqueio do Prata se estenderiam até a Regência.
De maneira geral, a Guerra foi impopular no Brasil, onde vigia o sentimento geral de se estar lutando e envidando esforços por uma causa longínqua e pouco relevante. O Parlamento, reaberto em 1826, não se furtou a tecer críticas à Guerra, amiúde vista também como uma veleidade pessoal do Imperador, junto às disputas sucessórias portuguesas. A Guerra da Cisplatina foi um dos principais, mas não o único, desgastes que culminaram, em 1831, com a abdicação de Dom Pedro I.