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Padrão de Resposta
A questão cubana foi um dos momentos mais importantes da Guerra Fria no contexto do continente Americano, principalmente por suas consequências nos cenários políticos dos países da região. A Revolução Cubana havia terminado em 1959, mas apenas em 1961, o regime de Fidel Castro aderiu expressamente ao comunismo, o que causava bastante preocupação aos EUA no contexto da Guerra Fria. Os EUA haviam consolidado sua hegemonia em relação aos países do continente americano, estabelecendo vários mecanismos para forjar uma aliança continental, mas que favoreceriam os interesses daquela potência. Assim, o estabelecimento da Organização dos Estados Americanos (OEA) e, antes, o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), de 1947, visavam criar mecanismos regionais de defesa e de concertação política para conter possíveis ameaças de espraiamento de forças comunistas no continente. Em nível sistêmico, o início da Guerra Fria se consolidava, com a Doutrina Truman e o Plano Marshall e as reações da União Soviética a esse plano e aos desígnios dos países ocidentais. A América, em geral, no início da Guerra Fria, mostrou-se do lado capitalista, liderado pelos EUA, até mesmo como continuidade à hegemonia exercida pelo país desde inícios do século XX. No entanto, alguns países ensaiavam políticas externas de cunho mais autonomista e não diretamente alinhados com os EUA, sobretudo após virem-se frustradas inciativas em prol do desenvolvimento econômico na região. Nesse sentido, é notória a iniciativa da OPA, de Juscelino Kubitschek, que teve apoio de países americanos, como a Argentina, mas que não teve o correspondente entusiasmo ou comprometimento dos EUA.
Muitos países da região tinham de endereçar problemas de desenvolvimento e de redução da pobreza, além de dar cabo a processos de industrialização. A política externa independente (PEI) vinha nesse sentido, de se buscar uma atuação mais autônoma e menos ligada às amarras da Guerra Fria, para poder negociar da melhor forma de modo a trazer benefícios e desenvolvimento econômico e social. A PEI, assim, pregava o universalismo das relações internacionais, uma diplomacia não influenciada por conflitos ideológicos da Guerra Fria, adensamento das relações com os países latino-americanos. Dessa forma, o Brasil buscou incrementar seus laços bilaterais com o países do Leste europeu, com a União Soviética, com a China comunista, mas também com países árabes, africanos recém-independentes, sem descuidar de suas relações tradicionais com os EUA e com a Europa Ocidental.
A questão cubana põe em xeque, porém, esse aspecto de “independência”. Como o Brasil estava inserido no contexto americano – e, portanto, ocidental – da Guerra Fria, além de ter grande parte de seu comércio e de fluxos de investimento dos EUA, o país não tinha, ao fim e ao cabo, uma margem de manobra tão extensa ou tão autônoma como se pensava. O país ainda era dependente de recursos externos para seu desenvolvimento econômico, grande parte dos quais vinha dos EUA. Com a posição clara de Cuba em relação ao seu lado na Guerra Fria, a margem de manobra ficava ainda mais restrita para o Brasil, sobretudo porque a sociedade brasileira e os órgãos políticos vinham se polarizando em campos opostos do espectro político-ideológico da Guerra Fria, agravando a crise de governabilidade interna.
Dessa forma, o posicionalmente do Brasil com relação à suspensão de Cuba buscou manter certo aspecto daquela ideia de autonomia ou de independência da política externa. O Brasil abstém-se de votar pela suspensão de Cuba da OEA, juntamente com outros 5 países dos continente. No entanto, o Brasil vota a favor da resolução de que o comunismo é incompatível com o sistema político e com a trajetória dos países do continente americano, mostrando que o país estava do lado ocidental no contexto da Guerra Fira e não alijar-se de modo contundente do sistema interamericano sob hegemonia dos EUA.
Embora a posição brasileira com relação à suspensão de Cuba tenha, de certo modo, resguardado aspecto de autonomia da PEI, a polarização na sociedade brasileira, aliada à política externa dos EUA de evitar a propagação do comunismo no continente, levou à derrubada do regime democrático e à instauração da ditadura militar no país. O novo regime, por exemplo, rompe relações diplomáticas com Cuba, exacerbando a influência do contexto de acirramento ideológico influenciado pela Guerra Fria.