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A República Liberal (1945-64) foi marcada pela urbanização e pela industrialização do Brasil. Nesse período, houve amplo engajamento popular na política, sobretudo em torno de dois projetos antagônicos: nacional-desenvolvimentismo e liberal-conservadorismo. Como consequência, o período foi caracterizado por grande polarização ideológica, da qual resultaram sucessivas crises políticas (1954, “Novembrada”, Campanha da Legalidade). A polarização na sociedade e no Parlamento se refletia na política externa, sobretudo em torno das relações entre o Brasil e os Estados Unidos – com destaque para o Acordo Militar de 1952 e a Questão Cubana.
Com a Lei Agamenon Magalhães, de 1945, foram quatro os principais partidos políticos: PSD, PTB, UDN e PCB. O PSD tinha sua base de apoio no campo e abrangia interventores da Era Vargas. O PTB resultava da “invenção do trabalhismo” e contava com o apoio dos trabalhadores. A UDB tinha base conservadora e era fortemente antigetulista. O PCB, liderado por Carlos Prestes, foi colocado na ilegalidade em 1947. A industrialização e urbanização do período fez que o PTB se constituísse o partido de maior crescimento nas bancadas. Durante a década de 1960, antes da ruptura de 1964, o PTB tinha bancada que se aproximava à do PSD.
O processo de industrialização, por sua vez, resultou na elaboração de dois projetos antagônicos de desenvolvimento. De um lado, havia o projeto liberal-conservador, encabeçado pela UDN, pela elite urbana e setores do empresariado. Defendiam a associação com o capital estrangeiro no desenvolvimento da indústria nacional. Carlos Lacerda e a “banda de música” lideravam esse projeto. Não obstante, na criação da Petrobrás, em 1953, defenderam que a empresa fosse monopolista e estatal. O suporte ideológico desse projeto vinha mormente do IBAD e do IPES.
O projeto nacional-desenvolvimentista, por outro lado, pregava maior participação do capital nacional, inclusive por meio de restrição ao fluxo de capitais. Era defendido por trabalhadores e por camadas médicas urbanas, bem como pelo setor nacionalista das Forças Armadas – como demonstra Estillac Leal. O suporte ideológico desse projeto adivinha do ISEB.
Essa realidade interna, de um país que se urbanizava e se industrializada, refletiu-se na política externa. No Governo Dutra, a cruzada anticomunista no plano interno resultou no rompimento de relações com a URSS. No contexto da Guerra Fria, nem mesmo os EUA romperam relações com a potência rival. Ainda, Dutra tentou usar a política externa como instrumento de desenvolvimento. Embora as expectativas tenham sido frustradas, a Missão Abbink e a constante demanda por auxílio norte-americano (um “Plano Marshall” para o Brasil” são evidências desse esforço. No Governo Vargas (1951-54), o presidente tentou retomar a política de barganhas para atender aos anseios da sociedade por desenvolvimento. Em JK, por meio do desenvolvimentismo-associado, pela OPA e pelo envio de missão comercial à URSS, a política externa visou a adequar-se à realidade interna de um país que se industrializava.
A realidade de “um país em movimento”, na década de 1960, no governo Jânio e João Goulart, resultou na polarização do Parlamento e formação de bancadas suprapartidárias. De um lado, formou-se a Frene Parlamentar Nacionalista, que defendia o aprofundamento da PEI e o estruturalismo reformista de Goulart. Contava com apoio, sobretudo, do PTB, das Ligas Camponesas e do ISEB. No Congresso, a “ala moça” do PSD e o grupo “Bossa Nova” da UDN concordavam com esse projeto. Por outro lado, formou-se a Aliança Democrática Parlamentar, contrária ao aprofundamento da PEI. O auge dessa polarização ocorreu com a Questão Cubana. A posição de San Tiago Dantas, na política externa, refletiu-se na realidade interna. Com efeito, após a queda de Tancredo Neves, Dantas não logrou ser o Primeiro Ministro. A política externa, nesse contexto, foi de interesse dos cidadãos como nunca antes na história brasileira. O Parlamento foi tomado por discussões acerca das relações internacionais. A PEI, inclusive, foi um dos fatores que contribuiu para a radicalização de 1964, que culminaria no golpe civil-militar. Ao defender a desideologização e a diversificação de parcerias, a PEI centrava-se na busca do desenvolvimento nacional.
No que concerne ao papel das relações bilaterais Brasil-EUA, o excerto de Boris Fausto ilustra a dimensão dessas relações. Durante todo o período da Experiência Democrática, os EUA foram os principais parceiros comerciais e investidores do Brasil. No final dos anos 1930, o alinhamento negociado e a barganha nacionalista de Vargas resultaram na criação da CSN, no reequipamento das forças armadas e na participação de tropas brasileiras na Segunda Guerra. No governo Dutra, acreditava-se, como consequência, na existência de “relações especiais” entre os países. Contudo, a ajuda norte-americana ficou aquém do esperado, o que levou Raul Fernandes a elaborar o “memorando da frustração”.
A pressão do Brasil por ajuda norte-americana continuou na década seguinte. Em 1951, na IV Reunião Interamericana, o chanceler Neves da Fontoura adotou postura demandante no aspecto econômico. Os EUA eram percebidos como parceiros fundamentais para que o Brasil pudesse se desenvolver. No governo JK, a diplomacia buscou ajuda norte-americana. O governo iniciou-se com ótimas relações, como mostra o acordo sobre a base de foguetes em Fernando de Noronha. As demandas brasileiras, no entanto, foram recebidas com frieza pelo presidente Eisenhower. Isso levou JK a articular a OPA, a qual é evidência da crucialidade dos EUA nas relações do período.
A aliança entre Brasil e Estados Unidos também se verifica em convergências em foros regionais e multilaterais. Na Guerra Fria, o Brasil pôs-se do lado do Ocidente. Nesse sentido, integrou o TIAR, o regime de Bretton Woods e a OEA. Nas Nações Unidas, acompanhou o voto dos Estados Unidos quanto à negativa de conceder-se assento permanente à República Popular da China. Mesmo durante a PEI, em que se visou maior autonomia, o Brasil não descuidou das relações bilaterais, como mostra o memorando Dantas-Bell. Os EUA, nesse sentido, foram cruciais parceiros econômicos, em que pese a existência de conflitos no decorrer das relações bilaterais.
A República Liberal, portanto, foi um período de industrialização e de urbanização da sociedade brasileira. Houve conflito entre projetos antagônicos de desenvolvimento, bem como maior reflexo da política externa nas discussões do Congresso. No decorrer do período, houve diversas “fases” nas relações internacionais brasileiras; em todas, no entanto, houve reconhecimento da importância das relações com os EUA.