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Padrão de Resposta
A política externa brasileira dos anos de 1980 e 1990 aproximou o Brasil dos países do Cone Sul. A superação da rivalidade entre Brasil e Argentina foi fundamental para os novos rumos. Cabe, nesse sentido, discorrer sobre o adensamento desses relacionamentos.
Embora houvesse regimes militares tanto no Brasil quanto na Argentina, desde a década de 1960, o crescimento econômico brasileiro do milagre alçava o país à categoria de hegemônico regional, a qual a Argentina aspirava, historicamente, desde os anseios pela reconstituição do vice-reinado do Prata. A ata Cataratas, entre Brasil e Paraguai, de 1966, ensejara contundentes protestos da Argentina, pois além de Buenos Aires poder ser inundada, no caso de algum rompimento de barragem, isso inviabilizaria a usina de Corpus Christi. Inclusive, houve protestos argentinos na Conferência de Estocolmo, em 1972. O acordo tripartite Brasil-Argentina-Paraguai ocorreu em contexto de distanciamento, graças à derrubada do governo de Isabelita Perón, a qual era fortemente contrária a uma amizade brasileiro-argentina, e de ascensão de militares que compactuavam com a ideologia da ditadura militar brasileira (1964-1985) de segurança nacional, além da rivalidade entre Argentina e Chile pela posse do Canal de Beagle. Assim, compatibilizaram-se a Usina Itaipu com o projeto de Corpus. A aproximação entre Figueiredo e Videla estendeu-se também a trocas de visitas.
A redemocratização no Brasil e na Argentina permitiram aprofundamento da aproximação. A área nuclear foi um setor em que o acercamento determinou a construção da confiança mútua. A declaração de Iguaçu entre Sarney e Alfonsin foi importante para essa cooperação na área nuclear, ao dispor que essa era fundamental para o desenvolvimento dos países, a qual passava a ser visto não mais como uma lógica de soma-zero, mas de complementação. A institucionalização da ABACC e seu acordo com a AIEA, antes mesmo de o Brasil assinar o TNP, consolidou a cooperação para a utilização da energia nuclear para fins pacíficos.
A vertente comercial também foi imprescindível para essa parceria. O Tratado de Integração e Cooperação Econômica (TICE) seguido pelo Programa de Integração (PICE) já haviam incrementado as trocas comerciais, como a venda de trigo argentino e de máquinas e equipamentos brasileiros. A previsão para o livre comércio em 10 anos foi reduzida pelo impulso dado por Collor e Menem à abertura econômica. Assim, houve a ascensão do interesse de Paraguai (o qual já era aliado ao Brasil desde o governo Stroessner) e Uruguai, os quais ampliaram o ACE-14, firmado por Brasil e Argentina, para incluir os quatro, no Tratado de Assunção. Esse previa um Mercado Comum e sua tarifa externa comum passou a vigorar já em 1995, embora existam exceções a ela até hoje e embora se tenha avançado apenas em uma União Aduaneira, em vez de em um Mercado Comum.
Adicionalmente, a mediação papal possibilitou a distensão entre Argentina e Chile, fazendo que o Chile seja um Estado associado ao Mercosul. Essas relações no Cone Sul exigiram que as tropas brasileiras, historicamente, concentradas no Sul do país, fossem, em grande medida, deslocadas para outras áreas como a amazônica, o que revela que os países do sul lograram a concertação pacífica.
A infraestrutura é outro tema relevante para a política externa brasileira para o Cone sul desde o apaziguamento com a Argentina. A inauguração de pontes da amizade e a institucionalização do FOCEM ensejou que o comércio tenha crescido mais de 9 vezes desde a criação do MERCOSUL, o qual, inclusive, permitiu e permite que o exporte majoritariamente produtos manufaturados, grandemente proporcionados pelas indústrias instaladas no período do regime militar.
As crises da dívida também provocaram concertação entre os países, na década de 1980, de que são exemplos o Consenso de Viña del Mar e as tentativas de multilateralizar a renegociação das dívidas, as quais acabaram sendo feitas bilateralmente. Ademais, o Grupo de Apoio a Contadora já revelava, desde a década de 1980, que países do Cone Sul tinham posições semelhantes em relação aos EUA e a paz em todo o continente. Na década de 1990, as relações Brasil-EUA melhoraram, assim como as argentinas-estadunidenses, o que demonstra que, desde a reaproximação brasileira-argentina, há sintonia mesmo entre as relações desses com o maior país do continente, o qual, anteriormente, havia mesmo suscitado rivalidades e acusações de sub-imperialismo brasileiro, sob comando dos EUA.