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Padrão de Resposta
A diplomacia cultural é um elemento fundamental do soft power brasileiro, ganhando corpo, sobretudo, após o advento da Semana de Arte Moderna. Com efeito, a emergência do Modernismo, em 1922, no centenário da Independência, representa a efetiva emancipação cultural do país, que pode, assim, projetar-se internacionalmente, por meio de uma arte genuinamente nacional. O movimento modernista é, naturalmente, tributário das vanguardas europeias, de modo que a sua própria emergência é signo da abertura do Brasil ao mundo. Tratou-se, ademais, de um movimento que decorreu da urbanização e da ascensão das classes médias, processo que se prenunciava na década de 1920. Retomando a proposta de Martius referente às três raças que conformam a brasilidade, o Modernismo busca conferir destaque equânime aos aportes ameríndio, africano e europeu que conformam o ethos nacional, em uma superação do indianismo ingênuo do século XIX. A Semana de Arte conta com importantes subvenções da cafeicultura paulista (a exemplo da família Prado), mas seu impacto imediato não foi tão significativo quanto aspiravam os jovens artistas ali reunidos. A reação republicana e o movimento tenentista que lhe foram contemporâneos são, pois, signo de um país em transformação.
O Modernismo consolida-se, ao longo da década de 1920, sendo epitomado pelo Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade e pelo Macunaíma de Mário de Andrade. Passa a manifestar-se, com efeito, em todos os âmbitos artísticos, e a consolidação do mercado editorial brasileiro, sob a liderança de Monteiro Lobato, permite que se expanda a projeção da arte nacional. Nessa perspectiva, ressaltam-se as sucessivas reformas por que passou o Itamaraty (sob Nilo Peçanha, Otávio Mangabeira e Afrânio de Melo Franco), que lhe garantiram uma estrutura institucional capaz de promover ativamente a cultura pátria. Supera-se, portanto, a passividade que marcara a projeção da cultura nacional até então: de um sentimento de inferioridade em relação à civilização europeia, passa-se a um sentimento de altivez. Não se deve olvidar, contudo, os movimentos Verde-Amarelo e Anta, que, em uma tendência primitivista, voltam-se às inspirações do fascismo europeu, aclimatado, naturalmente, à dinâmica brasileira. Desse processo, surge o Integralismo, sob a égide de Plínio Salgado.
A ascensão de Vargas, para além da mudança do eixo dinâmico da economia nacional, representa a consolidação efetiva do paradigma modernista. O Ministério da Educação, sob Capanema, passa a abrigar inúmeros artistas de relevo (a exemplo de Carlos Drummond de Andrade), que eram tolerados apesar das inclinações comunistas, em função de sua contribuição para a arte nacional. Nesse momento, há a consolidação, por um lado, da literatura regional (de José Lins do Rêgo, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos), que permite a projeção do Brasil real ao exterior, e, por outro, da Geração de 30 das Ciências Sociais, com Raízes do Brasil (de Sergio Buarque de Holanda) e Casa-Grande e Senzala (de Gilberto Freyre), que, inspirados na antropologia ora em ascensão, permitem vislumbrar o processo efetivo de formação da brasilidade. Nesse contexto, tem-se também o debate entre a Igreja Católica e os escolanovistas de Anísio Teixeira, em uma dialética determinante para o futuro da educação nacional.
A década de 1930 é marcada pela Política de Boa Vizinhança, encetada pelos EUA com o fito de atrair os países latino-americanos, que já flertavam com a Alemanha nazista, para a sua órbita. Nesse contexto, estabeleceu-se o Office for Inter-American Affairs, sob a égide de Nelson Rockefeller, para facultar o intercâmbio cultural no âmbito hemisférico. A aproximação com os EUA, determinante no contexto da Segunda Guerra, foi, pois, fomentada pela aproximação cultural, de que é exemplo o êxito de Carmem Miranda nos EUA e o desenho animado que promove o encontro entre o Pato Donald e o papagaio Zé Carioca. Se, por um lado, a cultura serve de elemento de legitimação simbólica do regime Varguista, com a exaltação patriótica exemplificada pelos concertos de massa de Villa Lobos e pelo estabelecimento da cadeia radiofônica da Rádio do Brasil, por outro, a busca de liberdade de expressão (aliada à luta contra os fascistas na Europa) concorre para o debacle do “pai dos pobres”, como patente na declaração oriunda do Congresso dos Escritores.
O impacto do movimento modernista é, portanto, duradouro, e amplia-se à medida que o país se moderniza. Destaca-se, por exemplo, que a arquitetura modernista dá concretude ao movimento, com a edificação do Ed. Capanema, sob Le Corbusier, e do complexo da Pampulha – primeira colaboração de JK e Niemeyer. Há de se salientar, também, o impacto cultural do próprio Itamaraty, que ora abrigava artistas renomados: Vinícius de Moraes, que vai aos EUA como terceiro-secretário e lá se inspira com o jazz e as vanguardas locais; João Cabral de Melo Neto, com sua poética que mescla as inspirações pernambucanas e espanholas; e Guimarães Rosa, que, em seu Grande Sertão: Veredas, desvela a efetiva universalidade do sertão brasileiro. Há, pois, uma projeção cultural crescente do país, que se vale de todas as riquezas da cultura pátria e é expressa, muitas vezes, pelos próprios diplomatas.
A década de 1950 e a República Liberal conformam, nos termos de F. Novaes, “um país em movimento”. Por um lado, há uma aproximação significativa em relação a Portugal, vertebrada pela tese do lusotropicalismo proposta por Gilberto Freyre e pelo ativo lobby luso na Capital. Por outro, procede-se ao ápice da autonomia artística e cultual consubstanciada em Brasília, obra prima de Niemeyer, Lúcio Costa e Burle Marx, que, em sua teatralidade, epitomiza um país que aspirava à modernidade. A emergência de uma nova musicalidade, com a originalidade de João Gilberto, faz que JK ganhe a alcunha de “Presidente bossa-nova”, e o sucesso internacional dessa mistura de samba e de jazz – evidência, pois, do hibridismo pátrio – reforça a imagem de um país em transformação. Ainda assim, há também espaço para a arte-denúncia, patente no Orfeu Negro de Vinícius e no Cinema inovador de Nelson Pereira dos Santos, lançando luz sobre as desigualdades que marcam o país. De todo modo, resta evidente que a cultura serviu de instrumento da PEB em seu sempiterno pleito pelo desenvolvimento.
À medida que a Guerra Fria avançava e o centro capitalista voltava suas atenções para outras regiões, a cultura serve de reforço ao desenvolvimento, ressaltando a resiliência e a criatividade do povo nacional mesmo ante ideologias exógenas, como sublinha a Operação Pan-Americana de JK. Nesse sentido, há de se ressaltar a dimensão cultural da Política Externa Independente, que, imbuída de sua “vocação africana”, envia a missão do navio Custódio de Melo à costa africana e instaura os programas de intercambio PEC-G e PEC-PG. O Itamaraty, cuja estrutura institucional se consolidara com o Departamento Político e Cultural e a Divisão de Difusão Cultural, passa a propugnar uma difusão cultural tão universal quanto os princípios que embasaram a PEI. A promoção cultural é, pois, uma reação ao tensionamentos da Guerra Fria. O nacional-desenvolvimentismo aventado pelo ISEB e pelo estruturalismo cepalino de Celso Furtado ganham, assim, corpo na PEI. A diplomacia cultural reflete, portanto, o dinamismo da brasilidade.