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Padrão de Resposta
A independência nacional não foi acompanhada, de imediato, da emancipação cultural e literária, de sorte que se impunha a necessidade de edificação de uma arte efetivamente brasileira. Ainda que a transmigração da Corte, com a instituição da Biblioteca Nacional, do Real Horto e das Escolas Superiores da Bahia e de SP tenha significado uma ruptura em relação à produção cultural e intelectual pátria, observa-se a permanência de um laço íntimo com a matriz lusa. Essa relação é dinamizada pela vinda das missões artísticas e científicas da França e da Áustria, com artistas e intelectuais como Debret, Taunay, Martius, Spiz, Montigny e Eschwege, que conferiram vitalidade às produções realizadas em solo brasileiro.
Nos termos de Antonio Candido, contudo, é somente com o advento do Romantismo (na década de 1830), que tem em G. de Magalhães um efetivo pioneiro, que a cultura e a literatura nacional ganham corpo. Na medida em que a presença lusa era ainda preponderante no país recém independente, há de se discutir a efetiva brasilidade da literatura ora produzida e da língua então falada. Nesse sentido, salienta-se a emergência do indianismo, que se fundamente em uma busca das raízes profundas da brasilidade, produzindo uma idealização do ameríndio que se coaduna com a literatura romântica de tendência medievalista que se produzia na Europa. O índio encarna, portanto, os valores civilizados a que aspirava a nação em formação. O registro mantinha-se, em larga medida, de acordo com o cânone luso, em um processo que somente se relativiza com a produção de José de Alencar, que incorpora, ainda que paulatinamente e apesar das críticas, elementos do falar brasileiro. Essa dinâmica é evidente, por exemplo, em Iracema. A literatura e a língua brasileiras consolidam-se, destarte, à medida que os elementos da brasilidade e do registro se veem plasmados na literatura dos românticos pioneiros.
O movimento de consolidação nacional é marcado, ademais, pela inaguração do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia Imperial de Belas Artes e do Colégio Pedro II, destinado não só à educação do Imperador, mas também das elites nacionais, que ali socializavam, tendo como professores literatos como Joaquim M. de Macedo. O IHGB contribuiu, significativamente, para a construção da identidade nacional, como patente no concurso sobre “Como escrever a História do Brasil”, vencido por Martius com a tese concernente ao “Mito das Três Raças”. Essa valorização inédita das matrizes africana e indígena – ainda que mantido o eurocentrismo – é evidência do dinamismo cultural que se prenunciava naquele momento. Há, ainda, esforço significativo de mapeamento e de exploração da natureza pátria: para construir-se um país, é, afinal, mister conhecê-lo. Esse empreendimento é patente na mapoteca reunida por Duarte da Ponte Ribeiro, que, em suas missões, colaborou diretamente com o IHBG. Cabe, ainda, destacar a Academia Imperial de Belas Artes, que, para além da formação dos artistas plásticos que retratavam a vida nacional, configurou instrumento de projeção internacional do país: diversos artistas, muitas vezes subvencionados pelo próprio Imperador, eram enviados para estudar na Europa e lá promover as singularidades do Brasil. Pedro Américo, que se celebrizou pelos quadros épicos da história nacional, foi um dos bolsistas do Imperador, enviado à Europa para estudar.
Apesar do autoritarismo de uma Constituição Outorgada, não se pode olvidar que a Carta de 1824 consagrava o ensino público gratuito, e o Imperador Pedro II, homem de cultura que era, não se furtou a estimular a conformação de aparatos educacionais e de instrução. Lembra-se que, sob o Padroado, o governo imperial tinha amplo controle sobre a Igreja, influindo, portanto, sobre os Institutos de Educação por ela mantidos. Nota-se, ademais, a ampla disseminação de periódicos e de panfletos no período Imperial, os quais, para além de meio de ativismo político (sendo tolerados por Pedro II, apesar das críticas severas),