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Padrão de Resposta
As ideias que circularam no Império do Brasil ao longo da segunda metade do Segundo reinado foram importantes fatores para a desestabilização do regime monárquico. A chamada geração de 1870 foi influenciada, internamente, pelas reformas instauradas pelo Visconde do Rio Branco, pela renovação empreendida no Parlamento após a implementação da Lei dos Círculos, pelo contexto de crise econômica oriunda da Guerra do Paraguai, entre outros, e, externamente, pelas ideias liberais que circulavam nos Estados Unidos e na Europa.
A emergência da Geração de 1870 traz uma reorganização da configuração partidária que havia se estabelecido desde o início do Segundo Reinado. Até o período, dois partidos dominavam as relações no Parlamento, os liberais e os conservadores, tendo havido ainda entre 1853 e 1858 a união dos dois no chamado Gabinete da Conciliação. O breve período de predomínio liberal no Gabinete Zacarias no início dos anos 1860 é interrompido pela atuação do Imperador em favor do conservador Visconde do Rio Branco a fim de finalizar o conflito no Paraguai. Se, por um lado, a intervenção no Imperador gerou um racha entre os liberais, que formaram dois outros partidos, o Partido Liberal e o Partido Radical – posteriormente Partido Republicano –, por outro, possibilitou ao Visconde do Rio Branco implementar uma série de reformas que teriam importante consequências nos anos seguintes.
Com uma agenda destinada a implementar pautas liberais, o Visconde do Rio Branco foi responsável, entre outras coisas, pela criação de faculdades, notadamente a faculdade de Geologia de Ouro Preto, possibilitando a jovens de classe média formar-se e terem ambições de ter mais poder político, e implementou também a Lei do Terço, que garantia que a cada dois deputados eleitos na província, um seria de oposição. Tais medidas são importantes para a compreensão dos debates da década de 1870.
Uma nova classe média urbana formava-se e, como tal, refletia uma dada percepção de sua exclusão do debate político. Compreende-se, nesse sentido, a formação mesmo do Partido Republicano logo após o lançamento do Manifesto Republicano de 1870. Majoritariamente formado por profissionais liberais urbanos, defendia o fim do Conselho de Estado, do Poder Moderador, a defesa de direitos civis e políticos, embora não tocasse no tema da escravidão. Cabe, no entanto, ressaltar que o Partido Republicano Paulista, criado na Convenção de Uti, tinha outras prioridades. Formado, sobretudo, por proprietários rurais de novas zonas de produção cafeeira, tinham interesse na autonomia regional para levarem à frente seus negócios estando os direitos civis e políticos em segundo plano.
A efervescência intelectual que marca o período não é apenas fruto de uma conjuntura interna, mas também da absorção de desenvolvimentos internacionais, do que são exemplo a Guerra Civil nos Estados Unidos e a instauração da III República na França, após a queda da Comuna de Paris. Noções de defesa do liberalismo rapidamente difundiram-se no Brasil e, embora muitos pesquisadores defendam que essas ideias foram adotadas acriticamente, pesquisas mais recentes como a de Angela Alonso advogam que essas ideias foram selecionadas à partir de sua adaptação ao contexto brasileiro, e lidas sob uma perspectiva local. Assim, liberalismo, darwinismo e positivismo encontraram bastante receptividade no Brasil.
Sob vários aspectos essas ideias estiveram presentes na crise que levou ao ocaso da Monarquia. O liberalismo, notadamente político, estava presente no Parlamento com o Partido Republicano e com as intensas críticas levantadas pelo grupo e pelos jornais à manutenção do regime e à crise oriunda do conflito no Paraguai. O positivismo também esteve presente, sobretudo na formação de cadetes na Praia Vermelha. Sob liderança de Benjamin Constant, os jovens receberam formação altamente intelectualizada que pregava a participação do soldado na vida política, o que foi nomeado por José Murilo de Carvalho como a ideologia do soldado-cidadão. Embora outras questões também tenham sido fundamentais para a crise do Império, a difusão de ideias renovadoras teve importante papel.