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Padrão de Resposta
Consagrada na historiografia como “equidistância pragmática” — a expressão de Gerson Moura sintetiza o que veio a ser a diplomacia pendular
de Vargas: uma “barganha nacionalista” entre o Brasil e seus dois maiores
parceiros comerciais do período imediatamente anterior. O país buscava
investimentos essenciais à industrialização nacional — sobretudo na indústria pesada e para a modernização das Forças Armadas, e entraria na
guerra ao lado dos EUA após compromisso em maciços investimento no
país, como o reaparelhamento das Forças Armadas e a construção da CSN
financiada pelo EXIMBANK. A decisão da entrada do Brasil ao lado dos
aliados contra o eixo foi uma reedição da entrada do país na primeira guerra. Mais uma vez os submarinos alemães eram um diferencial estratégico e
a crise dos submarinos — com o torpedeamento de embarcações brasileiras
quando ainda neturas — apressou a entrada do país no conflito. A entrada
do Brasil ao lado dos aliados era de importância estratégica, e o “trampolim
para a vitória” foi base militar de grande relevância.
Derrotado o Eixo, o paradoxo de terem lutado os brasileiros contra os ditadores nazi-fascistas na Europa enquanto o Brasil era uma ditadura ficou
insustentável. As pressões contra o autoritarismo do Estado Novo levaram
à constitucionalização do regime. Mas Vargas continuaria a ser uma figura
muito popular.
A lei Agamenon Magalhães teve grande importância na “experiência democrática brasileira” haja vista que contribuiu para a consolidação do sistema eletivo do Brasil cujos controles acabaram de ser afrouxados. Buscou-se
retirar o poder de facções regionais com a obrigatoriedade de que os partidos fossem nacionais, e estabeleceu-se o pluripartidarismo — que vigiu
durante todo este interregno democrático. O PTB era o partido do trabalhismo — massas cooptadas que fortaleciam a base varguista. O PSD, por
seu turno, também dava suporte a Vargas, e pugnava por reformas sociais.
Na UDN assentava-se a oposição a Getúlio — sobretudo composta pelas
elites nacionais insatisfeitas com os arroubos populistas do presidente. O
varguismo oscilou em diversos momentos no que diz respeito à sua relação
com os comunistas: apoio deles na revolução de 1930; proscrição do partido e entrega de Olga Benário aos nazistas; relaxamento da perseguição e
mesmo apoio dos comunistas à eleição de Vargas.
Com as múltiplas pressões pela abertura do regime e por eleições livres,
Vargas teve de ceder, mas não sem influenciar nos resultados delas. Na disputa entre o brigadeiro Eduardo Gomes e o candidato varguista — Gen.
Eurico Gaspar Dutra, Vargas, inicialmente reticente, ofereceu apoio à eleição de Dutra – o que naquele contexto foi essencial à eleição dele. “Fake
news” pregaram no brigadeiro a pecha de elitista, enquanto as massas foram
manobradas pelo carisma de Vargas a favor de seu candidato. Após retiro
em São Borja, o fim do governo Dutra presenciou a força do populismo
varguista que reconduziu o presidente mais uma vez ao poder — eleito, mas
num contexto no qual seus artifícios autoritários enfrentariam obstáculos.
“Bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar. O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar” — este era o "jingle” que embalou a vitoriosa
campanha de massas que veio a reeleger Vargas. O "queremismo” era a
expressão do apreço popular das massas a Getúlio. Ele se dava em decorrência da forte memória paternalista construída no Estado Novo — onde
o Departamento de Imprensa e Propaganda investia maciçamente no culto
ao líder, mas também pelo sentimento de gratidão do contingente urbano a
Vargas em decorrência da legislação trabalhista construída pelo presidente
nos últimos anos.
A Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) foi uma série de peças legislativas que conferiam aos trabalhadores urbanos uma série de direitos que
eles efetivamente ainda não tinham. A estratégia da cooptação dos sindicatos — com a unidade sindical e seus orçamentos controlados pelo governo
resultou no "sindicalismo pelego” — que agradava aos trabalhadores “agraciados pelas benesses de Vargas” roubando das lideranças sindicais a efetiva
capacidade de luta e mobilização.
As forças armadas, com o fim da 2GM estavam ciosas de que Getúlio não
quisesse largar o poder, ao passo em que vivenciariam, no teatro de operações, a luta pelos ideais de liberdade. Vargas foi deposto em 1945, para,
após o governo Dutra, ser eleito democraticamente. Entretanto, as novas
circunstâncias levariam à mais intensa pressão por parte da UDN e uma
economia em crise, o que levou ao suicídio.