×
Padrão de Resposta
Na década de 1920, São Paulo era uma cidade em efervescência, com espetacular crescimento populacional e grande dinamismo econômico. O avanço da lavoura cafeeira no Oeste Paulista, desde a segunda metade do século
XIX, propiciara uma circulação de capitais na cidade de São Paulo, cuja
produção industrial superou a do Rio de Janeiro já na segunda década do
século XX. São Paulo, nos anos 1920, abrigava uma sociedade diversa, com
uma classe média estruturada em torno dos serviços urbanos, comerciantes
e uma classe incipiente de industriais. A capital paulista também recebeu
um grande influxo de migrantes: espanhóis, portugueses, italianos, japoneses, sírio-libaneses e judeus. Nesse contexto, emergiram movimentos intelectuais e artísticos plurais, em consonância com a modificação da sociedade. A Semana de Arte Moderna de 1922, que contou com a organização
e participação de escritores, pintores e escultores, buscou romper com as
premissas estéticas vigentes até então — o romantismo, na literatura, o neoclassicismo, na arquitetura, e o realismo, na pintura. Entre os participantes da Semana de Arte Moderna estavam Mário de Andrade, Oswald de
Andrade, Menotti Del Picchia e Anita Malfatti, por exemplo. Na Semana,
discutiu-se a criação de uma arte nacional, que não fosse uma mera cópia
das tendências artísticas europeias. Mário de Andrade foi o formulador do
Movimento Antropofágico, que propunha “deglutir” as influências culturais estrangeiras em prol da gestação de uma arte autenticamente brasileira.
Menotti Del Picchia, por sua vez, filiou-se ao Movimento Verde e Amarelo,
que defendia uma arte nacional completamente dissociada da arte europeia.
Recebida com espanto pela sociedade paulistana, a Semana de 1922 deixou
como legado o modernismo, que se manifestou na literatura, na arquitetura, na escultura (Brecheret), na pintura (Portinari, Di Cavalcanti, Tarsila do
Amaral, Anita Malfatti), ao longo do século XX. No campo específico da
literatura, além da primeira geração de escritores modernistas, associada à
Semana de Arte Moderna de 1922 (sobretudo Mário de Andrade, Oswald
de Andrade e Manuel Bandeira), houve uma segunda geração nos anos
1930 (Graciliano Ramos, Cecília Meireles, Rachel de Queiroz) e, nos anos
pós-Segunda Guerra Mundial (Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Carlos
Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto), uma terceira geração. Ainda na década de 1920, a revista Klaxon, veiculada mensalmente,
foi uma importante publicação para a difusão das ideias modernistas, que
passaram progressivamente a ser aceitas pela sociedade paulistana, como
demonstra a longevidade do movimento modernista. Por fim, vale ressaltar
outras tendências artísticas modernas que irromperam durante a Primeira
República, antes da Semana de Arte Moderna de 1922: o surrealismo, o
cubismo e o futurismo. Na literatura, Euclides da Cunha escreveu “Os Sertões”, sobre a Guerra de Canudos, muito antes do movimento regionalista
dos anos 1930.
Inicialmente expresso na literatura de ficção, o modernismo acabou contribuindo para uma releitura sociológica da identidade nacional. Nos anos
1930, Gilberto Freyre, em “Casa-Grande e Senzala”, e Sérgio Buarque de
Holanda, em “Raízes do Brasil”, exploraram idiossincrasias do povo brasileiro, como a mistura das três raças e o conceito de “homem cordial”, em
mais um distanciamento dos modernistas de caracterizações formuladas
previamente por intelectuais europeus.