A questão do meio ambiente e os desafios para a construção de uma perspectiva transdisciplinar: uma introdução
O tema proposto para o debate nos desafia a refletir, de imediato, sobre duas questões polêmicas que, hoje, preocupam as comunidades científicas, a saber: o problema da interdisciplinaridade e a questão do meio ambiente.
O grande desenvolvimento das diferentes ciências particulares, durante este século, contribui para grandes avanços científicos e tecnológicos, mas também gera uma extrema especialização do saber, cuja consequência é, frequentemente, o próprio comprometimento do entendimento do mundo. A possibilidade de os saberes antigos sucumbirem aos saberes novos faz com que os prisioneiros de uma visão imobilista corram o risco de ficar à deriva diante da tarefa de interpretação do presente.
A denominada crise ambiental a que hoje assistimos padece dessa situação e deve suscitar uma revisão das teorias e práticas das diversas disciplinas na medida em que demanda uma análise compreensiva, totalizante, uma análise na qual as pessoas, vindas de horizontes diversos e que trabalhem com a realidade presente, tenham o seu passo acertado através do mundo, através de um legítimo trabalho interdisciplinar.
Como oferecer subsídios para uma epistemologia da questão do meio ambiente que contribua para esse enfoque interdisciplinar? As disputas mantidas desde o século passado e o decorrente isolamento das disciplinas perderam significado em razão da complexidade dos dias atuais. Para alcançarmos uma interdisciplinaridade válida, precisamos partir de metadisciplinas, o que nos obriga a nos inclinar diante da história contemporânea. Do contrário, chegaríamos a uma interdisciplinaridade coxa, fundada num afã de especialidade extrema, com todos os perigos da analogia do tipo mecânico.
Não levar em conta a multiplicidade de prismas sob os quais se apresenta aos nossos olhos uma mesma realidade pode conduzir à construção teórica de uma totalidade cega e confusa. Mas a necessidade de partirmos de metadisciplinas que conduzam à visão sistemática da totalidade não exclui as especializações, pois estas continuam sendo necessárias. Por isso, uma exigência também essencial é a de bem precisar o objeto de estudo. Entendemos que um objeto de estudo supõe uma visão do real, que denota um sistema de pensamento: a partir do mesmo objeto as visões podem ser diferentes. É toda questão de objetividade do objeto e da objetividade do sujeito que sempre se recoloca.
Os dados do problema não são dados a priori quando se trata de definir a interdisciplinaridade. Também não podemos nos esquecer de que, para cada época e cada objeto, há uma interdisciplinaridade. Esta questão não é abstrata, pois não são propriamente disciplinas que estão em jogo, mas aspectos da realidade total, considerados a partir do fato de que o processo histórico muda a significação do objeto e a verdade necessária também muda com o tempo que passa. Isso é inevitável e acarreta inclusive mudanças no próprio elenco das disciplinas ou saberes de interesse.
Da evolução histórica resultam saberes novos, saberes renovados ou em vias de transformação e cuja definição é, por isso, difícil. O reconhecimento dessa evolução histórica é essencial. É sempre temerário trabalhar unicamente com o presente e somente a partir dele. Mais adequado é buscar compreender o seu processo formativo. Quando nos contentamos com o presente, e partimos dele, corremos o risco de estabelecer uma cadeia causal inadequada que pode comandar o raciocínio numa direção indesejada. É também problemático tomar como ponto de partida uma vontade planejadora, cujas premissas irão igualmente influenciar o encadeamento de fatos e ideias.
Daí a nossa proposta de rever a própria construção histórica do objeto, de modo a reconhecer os seus elementos formadores, avaliados não isoladamente, mas segundo o respectivo contexto. Para isso, acreditamos que um enfoque baseado no fenômeno técnico seja o mais adequado, já que a natureza e o espaço se redefinem a partir da evolução técnica, cuja periodização pode servir de base ao reconhecimento de uma periodização na história territorial, até chegarmos à fase atual, em que a problemática do meio ambiente se impõe.
Internet: <miltonsantos.com.br> (com adaptações).
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