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Padrão de Resposta
ENTREVISTADOR: Àquela época, você havia adquirido hábitos regulares de escrita?
McEWAN: Toda manhã, eu começava a trabalhar às nove e meia. Eu herdei a ética de trabalho do meu pai — não importava o que se havia passado com ele na noite anterior, ele sempre levantava da cama às seis da manhã. Ele nunca faltou ao serviço em quarenta e oito anos de exército. Nos anos 1970, eu costumava trabalhar no quarto do meu apartamento a uma mesa pequena. Eu escrevia à mão com uma caneta tinteiro. Eu datilografava um rascunho, marcava-o e datilografava novamente. Uma vez, paguei um profissional para datilografar o rascunho final, mas senti que eu estava deixando passar coisas que eu teria mudado se eu o tivesse datilografado. Em meados dos anos 1980, converti-me gratamente ao computador. O processo de escrita é mais íntimo, mais parecido com o pensamento propriamente dito. Em retrospectiva, a máquina de escrever parece uma obstrução mecânica abominável. Eu gosto da natureza provisória do material não impresso contido na memória do computador ‒ como um pensamento não falado. Eu gosto do modo como frases e passagens podem ser infinitamente retrabalhadas e como essa máquina fiel se lembra de todos os pequenos erros e mensagens para si. Até, é claro, que ela fica velha e quebra.
ENTREVISTADOR: Na introdução de “Jogo de Imitação”, você escreve sobre sua inveja de produtores de cinema com suas reuniões urgentes, sempre apressados em táxis.
McEWAN: Se, semana após semana, você não faz nada, a não ser conviver com fantasmas e deslocar-se da sua escrivaninha a sua cama e vice-versa, você sente falta de alguma forma de trabalho que envolva outras pessoas. Contudo, conforme fui envelhecendo, fui-me acostumando com os fantasmas e tornando-me um pouco menos interessado em trabalhar com outras pessoas.