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LÍNGUA PORTUGUESA 2004
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Questão q1 de 2004

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

Texto I – itens de 1 a 15
Para entender a atual e multifacetada crise cultural, precisamos adotar uma perspectiva extremamente ampla e analisar a
situação no contexto da evolução cultural humana. Os historiadores estão longe de elaborarem uma teoria abrangente da dinâmica
cultural, mas parece que todas as civilizações passam por processos cíclicos semelhantes de gênese, crescimento, colapso e desintegração.
Segundo os antigos filósofos chineses, todas as manifestações da realidade são geradas pela interação dinâmica entre dois pólos
de força: o yin e o yang. Heráclito, na Grécia antiga, comparou a ordem do mundo a “um fogo eternamente vivo que se acende e
apaga conforme a medida”. Empédocles atribuiu as mudanças no universo ao fluxo e refluxo de duas forças complementares, a que
chamou amor e ódio.
Entre os mais notáveis, mesmo que mais hipotéticos, estudos dessas curvas de ascensão e queda de civilizações, cumpre-nos
citar a importante obra A S tudy of H istory , de Arnold Toynbee. Os padrões culturais descritos por Toynbee parecem ajustar-se
muito bem à nossa situação atual. Ao observarmos a natureza dos nossos desafios, podemos reconhecer a confluência de diversas
transições.
A primeira transição, e talvez a mais profunda, segundo esse autor, deve-se ao lento, relutante, mas inevitável declínio do
patriarcado. A periodicidade associada ao patriarcado é de, pelo menos, três mil anos, e são mínimas as informações de que dispomos
acerca das eras pré-patriarcais. Tem sido extremamente difícil entender o poder do patriarcado, por ser ele totalmente preponderante.
Ele tem influenciado nossas idéias mais básicas acerca da natureza humana e da nossa relação com o universo — a natureza do “homem”
e a relação “dele” com o universo, na linguagem patriarcal. O patriarcado era o único sistema que, até data recente, não tinha sido
abertamente desafiado em toda a história documentada e cujas doutrinas eram tão universalmente aceitas que pareciam constituir leis
da natureza; na verdade, eram, usualmente, apresentadas como tais. Hoje, porém, a desintegração do patriarcado tornou-se evidente.
O movimento feminista é uma das mais fortes correntes culturais dos tempos atuais e terá profundo efeito sobre a futura evolução
humana.
A segunda transição, que terá profundo impacto sobre nossa vida, nos é imposta pelo declínio da era do combustível fóssil.
Os combustíveis fósseis têm sido as principais fontes de energia da moderna era industrial e, quando se esgotarem, essa era chegará ao
fim. Esta década será marcada pela transição da era do combustível fóssil para uma era solar, acionada por energia renovável oriunda
do sol; essa mudança envolverá transformações radicais nos atuais sistemas econômicos e políticos.
A terceira transição tam bém está relacionada com valores culturais. Envolve o que hoje é freqüentemente chamado de
“mudança de paradigma” — uma mudança profunda no pensamento, percepção e valores que formam determinada visão da realidade.
Esse paradigma compreende certo número de idéias e valores que diferem nitidamente dos da Idade Média, valores que estiveram
associados, na cultura ocidental, à revolução científica, ao Iluminismo e à Revolução Industrial. Nesse paradigma, incluem-se a crença
de que o método científico é a única abordagem válida do conhecimento e a concepção de que a vida em sociedade é uma luta
competitiva pela existência. Nas décadas mais recentes, concluiu-se que todas essas idéias e esses valores necessitam de uma revisão
radical.
De acordo com nossa ampla perspectiva da evolução cultural, a atual mudança de paradigma faz parte de um processo mais
vasto, de uma flutuação notavelmente regular de sistemas de valores, que pode ser apontada ao longo de toda a civilização ocidental
e na maioria das outras culturas.
Fritjof Capra. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1982, p. 24-9 (com adaptações).

Julgue os itens a seguir, que se referem à compreensão, à interpretação e aos aspectos gramaticais do texto I.

  1. A expressão “ a atual e multifacetada crise cultural” (R.1), embora imprecisa, tem cada um de seus vocábulos explicitado por mei o
    do desenvolvimento das seguintes i d éias: existe uma crise cultural nos dias atuais e essa crise (degradação de valores éticos) é
    “ multifacetada” por se estender a raças diferentes e a diferentes ecossistemas.

  2. A relação lógica entre os dois primeiros parágrafos pode assim ser descrita: no segundo parágrafo, enuncia-se a idéia da existência
    de forças geradoras que, como apontam pensadores de outras épocas, foram responsáveis pelas mudanças c í c l i cas, elencadas no
    primeiro parágrafo.

  3. Os dados e os argumentos apresentados pelo autor asseguram a objetividade do discurso, incisiv o e científico. No entanto, para
    s e e l i mi n arem os traços de subjetividade, seriam necessárias as seguintes alterações: retirada de “ parece que” (R.3) e tro ca d e
    “ parecem ajustar-se” (R.10) por ajustam-se.

  4. As “ transições” apontadas por Toynbee organizam-se diacronicamente de tal forma que são excludentes, e efetivamente ocorreram
    na ordem em que foram apresentadas.

  5. A regra de acentuação gráfica ilustrada em “ pólos” (R.6) não
    diz res peito à terminação da palavra, o que também ocorre
    com os vocábulos pôr (verbo) e ás (substantivo).

  6. Na linha 6, observa-se qu e a p a lavra “ ordem” não recebeu
    acento gráfico, assim como seu plural também não o
    receberia. Isso ocorre porq u e as palavras paroxítonas
    terminadas em -em/-ens não se acentuam, reg ra da qual a
    palavra hífens é exceção.

  7. As rees crituras de “ a que chamou” (R.7-8) e de “ de que
    dispomos” (R.13) como, respectivamente, que chamou de
    e que dispomos estão ambas de acordo com a modalidade
    es cr i ta padrão da língua portuguesa e preservam o senti d o
    original do texto.

  8. Na linha 9, a ligação estabelecida en t re os adjetivos
    “ notáveis” e “ hipotéticos” manter-se-ia coerente com o
    texto, assim como seria mantida a correção gramatical da
    frase, caso se substituísse “ mesmo que” por em bora ou
    posto que.

  9. No período “ Tem s ido extremamente difícil entender o
    p o d er do patriarcado, por ser ele totalmente preponderante”
    (R.1 4 ) , n ão se contrariaria o sentido original do texto, se a
    expressão grifada fosse substituída por hegemônico.

  10. Na linha 16, o pronome “ que” exerce a mesma função
    sintática do termo que o antecede: predicativo do sujeito.

  11. Os pronomes relativos “ que” (R.16) e “ cuj as ” (R.17) têm
    como elemento antecedente a mesma expressão nominal.

  12. O pronome “ t ais” (R.18), sem referência própria, tem seu
    sentido atribuído pelo termo antecedente “ univ ersalmente
    aceitas” (R.17).

  13. A oração “ que terá profundo impacto sobre nossa vida”
    (R.21) poderia estar entre parênteses ou entre travessões, mas
    não sem as vírgulas, porque, nest e caso, assumiria um
    caráter explicativo, o que acarretaria incoerência textual.

  14. Os vocáb u l o s “ dos” e “ da” (R.27) provêm ambos da
    contração da preposição de com outro vocábulo: em “ d o s”,
    com um pronome demonstrativo e, em “ d a” , com um artigo
    definido.

  15. Mantêm-se a correção gramatical e o sentido original do
    texto, se o ú l t imo parágrafo for reescrito do seguinte modo:
    Nessa ampla perspectiva de evolução cultural, cuja mudança
    do atual paradigma, percebe-se um processo mais vasto, com
    uma flutuação notavelmen t e regular de sistemas de valores,
    que pode ser ap o n t ado ao longo de toda a civilização
    ocidental e da maioria das outras culturas.