Texto II – itens de 16 a 20 e 29-30
Além de serem interdependentes, identidade e
diferença partilham uma importante característica: elas são o
resultado de atos de criação lingüística. Isso significa dizer que
não são “elementos” da natureza, que não são essências, que
não são coisas que estejam simplesmente aí, à espera de serem
reveladas ou descobertas, respeitadas ou toleradas. A identidade
e a diferença têm de ser ativamente produzidas. Somos nós que
as fabricamos no contexto de relações culturais e sociais. Elas
são criadas por meio de atos de linguagem.
Como ato lingüístico, a identidade e a diferença estão
sujeitas a certas propriedades que caracterizam a linguagem em
geral. Por exemplo, segundo o lingüista Saussure, a linguagem
é, fundamentalmente, um sistema de diferenças, os
elementos — os signos — que constituem uma língua não têm
qualquer valor absoluto. Reencontramos, aqui, não a idéia de
diferença como produto, mas como a operação ou o processo
básico de funcionamento da língua e, por extensão, de
instituições culturais e sociais, como a identidade, por exemplo.
Derrida acrescenta a isso a idéia de traço: o s igno
carrega sempre não apenas o traço daquilo que ele substitui,
m as também o traço daquilo que ele não é, ou seja,
precisamente a diferença.
A identidade, tal como a diferença, é uma relação
social. Sua definição — discursiva e lingüística — está sujeita a
vetores de força, a relações de poder. A afirmação da
identidade e a enunciação da diferença traduzem o desejo dos
diferentes grupos sociais, assimetricamente situados, de garantir
o acesso privi legiado aos bens sociais. O poder de definir a
identidade e de marcar a diferença não pode ser separado das
relações mais amplas de poder.
Tomaz Tadeu da Silva. Identidade e diferença: a perspectiva dos
estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2 0 0 0 , p. 76 (com
a d a p t a ç õ e s ) .
Com relação ao texto II, julgue os itens a seguir.
-
Comprometer-se-ia o sentido original do período situado
entre as linhas 3 e 6 , caso se substituísse a construção na
voz pas s iva analítica “ à espera de serem reveladas ou
descobertas, respeitadas ou toleradas” (R.5 -6 ) pela passiva
pronominal correspondente. -
Atendendo-se às prescrições gramaticais, o segmento
“ Somos nós que as fabricamos” (R.8) poderia ser substituído
por Somos nós quem as fabrica. -
Ao final do 3.o parágrafo, mantendo-se a coerência e a coesão
textuai s , poderia ser acrescentado o seguinte trecho: Em
outras palavras, é a própria dicotomia um dos meios pelos
quais o significado é fixado. -
No texto, afirma-s e que os grupos sociais que estão
assimetricamente situados são o s q u e lutam para garantir o
acesso aos privilégios, como evidencia o emprego das
vírgulas na linha 28. -
D e acordo com o texto, identidade e diferença dev em s er
co mp reen d i d as em s u a d i mensão simbó l i ca , d e
representação, e analisadas com base nas relações de poder.