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LÍNGUA PORTUGUESA 2004
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Questão q3 de 2004

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

Texto II – itens de 16 a 20 e 29-30
Além de serem interdependentes, identidade e
diferença partilham uma importante característica: elas são o
resultado de atos de criação lingüística. Isso significa dizer que
não são “elementos” da natureza, que não são essências, que
não são coisas que estejam simplesmente aí, à espera de serem
reveladas ou descobertas, respeitadas ou toleradas. A identidade
e a diferença têm de ser ativamente produzidas. Somos nós que
as fabricamos no contexto de relações culturais e sociais. Elas
são criadas por meio de atos de linguagem.
Como ato lingüístico, a identidade e a diferença estão
sujeitas a certas propriedades que caracterizam a linguagem em
geral. Por exemplo, segundo o lingüista Saussure, a linguagem
é, fundamentalmente, um sistema de diferenças, os
elementos — os signos — que constituem uma língua não têm
qualquer valor absoluto. Reencontramos, aqui, não a idéia de
diferença como produto, mas como a operação ou o processo
básico de funcionamento da língua e, por extensão, de
instituições culturais e sociais, como a identidade, por exemplo.
Derrida acrescenta a isso a idéia de traço: o s igno
carrega sempre não apenas o traço daquilo que ele substitui,
m as também o traço daquilo que ele não é, ou seja,
precisamente a diferença.
A identidade, tal como a diferença, é uma relação
social. Sua definição — discursiva e lingüística — está sujeita a
vetores de força, a relações de poder. A afirmação da
identidade e a enunciação da diferença traduzem o desejo dos
diferentes grupos sociais, assimetricamente situados, de garantir
o acesso privi legiado aos bens sociais. O poder de definir a
identidade e de marcar a diferença não pode ser separado das
relações mais amplas de poder.
Tomaz Tadeu da Silva. Identidade e diferença: a perspectiva dos
estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2 0 0 0 , p. 76 (com
a d a p t a ç õ e s ) .

Texto Auxiliar 2

Texto III – itens de 21 a 30
A ética contemporânea faz grande alvoroço em torno
das diferenças culturais. Sua concepção do outro tem em vista
essencialmente esse tipo de diferenças. E seu grande ideal é a
coexistência tranqüila das comunidades culturais, religiosas,
nacionais etc., a recusa da “exclusão”.
Mas é preciso sustentar que essas diferenças não têm
qualquer interesse para o pensamento, não são mais que a
evidente multiplicidade infinita da espécie humana, a qual é tão
flagrante entre m im e m eu primo de Lyon como entre a
comunidade xiita do Iraque e os cowboys do Texas.
O embasamento objet ivo (ou à maneira de
historiador) da ética contemporânea é o culturalismo, a
fascinação verdadeiramente turística pela multiplicidade dos
hábitos, dos costumes, das crenças. E especialmente pela
inevitável bizarria das formações imaginárias (religiões,
representações sexuais, formas de encarnação da autoridade…).
Sim, o essencial da “objetividade” ét ica provém de uma
sociologia vulgar, diretamente herdada do espanto colonial
diante dos selvagens, ficando entendido que os selvagens estão
também entre nós (drogados dos subúrbios, com unidades
rel igiosas, seitas: todo o aparato jornalístico da ameaçadora
alteridade interna), ao que a ética, sem mudar o dispositivo de
investigação, opõe seu “reconhecimento” e seus trabalhadores
sociais.
Contra essas descrições fúteis (tudo o que nos contam
ali é uma realidade ao mesmo tempo evidente e por si mesma
inconsistente), o pensamento verdadeiro deve afirmar o
seguinte: sendo as diferenças o que há, e toda verdade sendo o
vir-a-ser do que ainda não é, as diferenças são precisamente o
que toda verdade deposita, ou faz aparecer, como insignificante.
Nenhuma situação concreta é esclarecida em razão do
“reconhecimento do outro”. Em toda configuração coletiva
moderna, há pessoas de toda parte, que comem
diferentemente, falam múltiplos idiomas, u sam diferentes
chapéus, praticam diferentes ritos, têm uma relação complicada
e variável com a coisa sexual, amam a autoridade ou a
desordem; e assim segue o mundo.
A. Badiou. Ética: um ensaio sobre a consciência do mal. Rio de
Janeiro: Relume-Dumará, 19 9 5, p. 40-1 (com adaptações).

Com relações às idéias d o texto III e a aspectos morfossintáticos,
julgue os itens subseqüentes. Com relação aos textos II e III, julgue os itens seguintes.

  1. A articulação das idéias do texto não permite a inferência de
    q u e, no passado, as diferenças culturais eram relegadas pe l a
    ética e, no moment o , são alardeadas em razão dos freqüentes
    processos de exclusão social.

  2. Segundo o autor do texto, os guardiães da ética
    contemporânea explicam toda forma de exclusão com base
    no determinismo cultural porque idealizam a convivência
    pacífica entre os povos.

  3. No último parágrafo, o autor sustenta que as diferenças, mais
    do qu e i l u s ó rias, são falseadas pela crença de uma verdade
    estável, resultante do raciocínio silogístico frági l p o r meio
    do qual a corrente culturalista concebe a alteridade.

  4. O texto é composto ess encialmente por enunciados
    categóricos , como evidencia o emprego reiterado de formas
    verbais no presente do indicativo.

  5. O texto informa que a concepção culturalista, cujos
    fundamentos advêm da sociologia vulgar, p o s tula que o
    “ outro” corres p onde ao segmento selvagem, que estará
    sempre presente como o o u tro ameaçador, o bárbaro. Assim,
    para essa corrente, a é t i ca prevalente é ainda a do branco
    colonizador.

  6. O trecho “ a fascinação ( . . .) imaginárias” (R.12-15) suscita
    duas observações: há, nele, indicadores da subjetividade do
    autor — “ fascinação verdadeiramente turística” e “ inevitável
    bizarria” —; a inserção da vírgula após “ crenças” (R.14), no
    lugar do ponto, seguida de alteração da inici a l maiúscula,
    atenderia ao que prescreve a norma gramatical.

  7. Preserva o sentido do texto orig i n al e a correção gramatical
    a seguinte paráfrase do período expresso entre as linhas 25 e
    31: Em oposição a essas descrições superficiais, o verdadeiro
    pensamento deve postular que o que existe são as diferenças
    e toda a verdade, o vir-a-ser daquilo, que ainda não é. Logo,
    as diferenças são exatamente o que a verdade toda imprime
    e faz emergir como sem significado.

  8. Atendendo-se à prescrição gramatical e mantendo-se a
    coerência com as idéias defendidas no texto, o seg u i n te
    período poderia dar continuidade ao texto III: Ou seja, a
    alteridade é simplesmente o que há. Existe, portanto, igual
    diferença entre, digamos, um camp onês chinês e um
    fu n c ionário norueguês tal qual entre eu e qualquer pess o a ,
    inclusive, eu mesmo.

  9. No text o II, o autor refuta abordagem em que se examinem
    a i d entidade e a diferença culturais dissociadas e como
    ev i d ên c ias em si, como algo estanque, dado, fixo e natural ,
    como é o enfoque do texto III.

  10. No texto II, o autor assu me que as relações de poder
    permeiam a construção de identidade, ao p asso que, no
    texto III, essas relações são sugeri d as pelos julgamentos de
    valor a l i presentes, sem que, no entanto, seja ressaltada a
    relação assimétrica entre os grupos sociais.