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Padrão de Resposta
As visões do trabalho do historiador que se depreendem dos textos “A narrativa na escrita da história e da ficção”, de Luiz Costa Lima, “Os vivos governam os mortos”, de Boris Fausto, e “O punhal de Martinha”, de Machado de Assis, apesar de peculiares, apresentam o traço comum de divergir da perspectiva do senso comum sobre o tema.
[…] Costa Lima caracteriza o trabalho do historiador como o esforço de organização dos vestígios do passado, a fim de constituir panorama calcado na realidade. Não se trata simplesmente de desvendar uma realidade preexistente, como suporia o senso comum, mas de elaborar narrativa que apreenda e organize o passado, sem permitir que a interpretação se constitua em fator de distorção ou anacronismo. Ao fundamentar a especificidade do discurso da história (por oposição ao da ficção) em sua pretensão de verdade, Costa Lima se distancia do que apregoam alguns teóricos contemporâneos.
[…] Para Boris Fausto, a interpretação é, ao lado do progressivo acesso às fontes, recurso fundamental do historiador, em que pese aos condicionamentos impostos pelo momento em que vive. Rejeitando como ilusória a pretensão positivista do conhecimento cabal e definitivo do passado, Fausto releva a importância da diversidade interpretativa para o amadurecimento de visões não-dogmáticas da história. Parece subjazer à sua visão do historiador a idéia democrática de que o debate e as controvérsias favorecem a aproximação da verdade.
[…] Dos três autores, Machado de Assis é quem expõe visão mais cética a respeito do historiador. Propenso, segundo o autor, a manipular fatos e cultivar legendas, o historiador relegaria ao esquecimento fatos que envolvem pessoas comuns, independentemente de seu valor intríseco. A incredulidade de Machado de Assis comporta um paradoxo, na medida em que apenas por intermédio do trabalho do historiador se podem desmistificar falseamentos operados por outros historiadores.