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Padrão de Resposta
A sociedade pós-moderna foi inaugurada, segundo François Dosse, no ano de 1968 e é marcada pela idéia de fragmentação do saber. O mundo contemporâneo tomou direção oposta ao arcabouço disciplinar definido pela modernidade.
No âmbito das ciências humanas, suscita-se controvérsia acerca da validade de uma história de fatos e a respeito da tênue diferença que a separa da ficção. Se, por um lado, se questiona a defesa da prevalência da história, por outro, confere-se à literatura certo poder de verdade, para além da verossimilhança, característica que a tradição lhe atribui. Estas disciplinas – a história e a literatura – têm dois pontos de convergência: a memória e a linguagem.
Hanna Arendt define a memória, coletiva ou individual, como o presente do ser pensante. O fazer social é motivado e limitado pelos valores oriundos do passado retido ou recriado na memória do indivíduo. De forma análoga, a psicanálise clínica, ao estudar as causas da psicopatia, não faz distinção entre o que o paciente resgata como fato de sua história pessoal e o respectivo vínculo com a realidade empírica. A razão, para isso, reside no fato de que todos nós vivemos precipitados no tempo, que não tem começo nem fim. Mais importante do que revelar a realidade objetiva, portanto, é verificar os efeitos de sentido que os fatos causam, porque daí nascem e se desenvolvem as identidades e diferenças culturais.
Quanto à linguagem, alguns filósofos contemporâneos, como Foucault, Deleuze e Bourdieu – influenciados pela fenomenologia ontológica de Heidegger – atribuem-lhe relevância superior, pois, em seu entender, a realidade humana é construída pela linguagem. Foucault, adotando posição mais radical, sustenta a idéia de que o sujeito é, em última instância, “efeito discursivo”, logo, não somos nós quem pronuncia a linguagem, mas é a ordem do discurso que constrói o ser social. Nesse sentido, o historiador e o literato não se servem da linguagem; ao contrário, ela é que se utiliza deles, por serem construídos de intertextos.
O trabalho do historiador, como responsável pela edificação da memória da vida social, não pode ignorar o processo de “revolução científica” e a conseqüente mudança de paradigmas. A transformação epistemológica é necessária não só para a adaptação das técnicas e métodos de pesquisa ao modo de pensar contemporâneo, mas também para a ampliação do conhecimento histórico do passado e de sua relação com o presente. O novo modelo não deve implicar total ruptura das fronteiras entre história e literatura, mas, sim, a adoção de perspectiva interdisciplinar para a delimitação entre ambas.
Se o objeto de estudo não é determinado pelo método de cada disciplina, há possibilidade de diálogo proveitoso entre teóricos de diferentes áreas do conhecimento. Ao mesmo tempo, há que se considerar que a realidade exterior não é passível de total apreensão pelos sentidos, que captam a aparência subordinada à cognição. Não resta dúvida de que o fazer científico – da história e da literatura – deve caminhar em direção à interdisciplinaridade, substituindo, neste diálogo, a conhecida metáfora da “guerra”, fundamentada na oposição, pela metáfora da “dança”, que se apóia na complementaridade.