Texto I – questões 1 e 2
1 Que outras lições poderia eu receber de um
português que viveu no século XVI, que compôs as
rimas e as glórias, os naufrágios e os desencantos
4 pátrios de Os Lusíadas, que foi um gênio poético
absoluto, o maior da nossa Literatura, por muito que
isso pese a Fernando Pessoa, que a si mesmo se
7 proclamou como o Super-Camões dela? Nenhuma
lição que estivesse à minha medida, nenhuma lição
que eu fosse capaz de aprender, salvo a mais simples
10 que me poderia ser oferecida pelo homem Luís Vaz de
Camões na sua extrema humanidade, por exemplo, a
humildade orgulhosa de um autor que vai chamando
13 a todas as portas à procura de quem esteja disposto
a publicar-lhe o livro que escreveu, sofrendo por isso
o desprezo dos ignorantes de sangue e de casta, a
16 indiferença desdenhosa de um rei e da sua companhia
de poderosos, o escárnio com que, desde sempre, o
mundo tem recebido a visita dos poetas, dos
19 visionários e dos loucos.
Ao menos uma vez na vida, todos os autores
tiveram ou terão de ser Luís de Camões, mesmo se
22 não escreveram as redondilhas entre fidalgos da corte
e censores do Santo Ofício, entre os amores de
antanho e as desilusões da velhice prematura, entre
25 a dor de escrever e a alegria de ter escrito, foi a este
homem doente que regressa pobre da Índia, aonde
muitos só iam para enriquecer, foi a este soldado cego
28 de um olho e golpeado na alma, foi a este sedutor
sem fortuna que não voltará nunca mais a perturbar
os sentidos das damas do paço, que eu pus a viver no
31 palco da peça de teatro chamada: Que Farei com
Este Livro?, em cujo final ecoa uma outra pergunta,
aquela que importa verdadeiramente, aquela que
34 nunca saberemos se alguma vez chegará a ter
resposta suficiente: “Que farei com este livro?”
José Saramago. Discurso proferido por ocasião do recebimento
do Prêmio Nobel de Literatura. Estocolmo, 1998 (com adaptações).
No discurso de José Saramago, a obra Os Lusíadas e seu autor,
Luís de Camões, são mencionados com admiração e reverência.
Julgue (C ou E) os itens a seguir, com base no texto I.
-
O trecho “as rimas e as glórias, os naufrágios e os
desencantos pátrios de Os Lusíadas” (R.2-4) refere-se
a episódios do período das grandes navegações
portuguesas. -
José Saramago alude a Fernando Pessoa como o
“Super-Camões” (R.7), relativizando o sentido do
predicado “um gênio poético absoluto” (R.4-5),
atribuído a Camões. -
O trecho “que não voltará nunca mais a perturbar os
sentidos das damas do paço” (R.29-30) caracteriza-se
pelo emprego dos recursos da redundância e do
eufemismo. -
Pelo que se depreende do texto, José Saramago
examinou a obra camoniana no drama Que Farei com
Este Livro?, representado no palco do paço português.