Texto para as questões de 10 a 12.
Contos de vigário
Passam-se tempos sem que ouçamos falar em contos1
de vigário. Muito bem. Tornamo-nos otimistas, imaginamos
que, se a reportagem não menciona esses espantosos casos de
tolice combinada com safadeza, certamente os homens4
ficaram sabidos e melhoraram.
Pensamos assim e devemos estar em erro.
Provavelmente esse negócio continua a florescer, mas as7
vítimas têm vergonha de queixar-se e confessar que são
idiotas. Raras vezes um cidadão se resolve a afrontar o
ridículo, e vai à polícia declarar que, não obstante ser parvo,10
teve a intenção de embrulhar o seu semelhante.
O que ele faz depois de logrado é meter-se em casa,
arrancar os cabelos, evitar os espelhos e passar uns dias de13
cama, procedimento que todos nós adotamos quando, em
conseqüência de um disparate volumoso, nos sentimos
inferiores ao resto da humanidade. Convenientemente curado,16
cicatrizado, esquecida a fraqueza, o sujeito levanta-se e
adquire consistência para realizar nova tolice. E assim por
diante, até a hora da tolice máxima, em que ninguém reincide19
porque isto é impossível.
Graciliano Ramos. Linhas tortas: obra póstuma. 11.a ed.
Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 1984. p. 154.
Quanto à descrição gramatical de elementos do texto, assinale a
opção correta.
-
A A forma verbal “Passam-se” (R.1) está no plural para atender
à regra gramatical de concordância com o sujeito da oração. -
B Em “Tornamo-nos” (R.2), a supressão do s é prescrita para se
evitar o efeito de eco. -
C O verbo “queixar-se” (R.8), utilizado no texto como verbo
pronominal, conjuga-se facultativamente sem o pronome. -
D Em “nos sentimos inferiores ao resto da humanidade”
(R.15-16), houve transgressão dos requisitos gramaticais para
a colocação pronominal. -
E Em “levanta-se” (R.17), a partícula “se” indica a
indeterminação do sujeito.