A sua [do sertanejo] religião é como ele — mestiça. Resumo dos caracteres físicos e fisiológicos das raças de que surge, [o sertanejo] sumaria-lhes identicamente as qualidades morais. É um índice da vida de três povos. E suas crenças singulares traduzem essa aproximação violenta de tendências distintas. É desnecessário descrevê-las. As lendas arrepiadoras do caapora travesso e maldoso, atravessando célere, montado em caititu arisco, as chapadas desertas, nas noites misteriosas de luares claros; os sacis diabólicos, de barrete vermelho à cabeça, assaltando o viandante retardatário, nas noites aziagas das sextas-feiras, de parceria com os lobisomens e mulas sem cabeça noctívagos; todos os mal-assombramentos, todas as tentações do maldito ou do diabo — esse trágico emissário dos rancores celestes em comissão na terra; as rezas dirigidas a S. Campeiro, canonizado in partibus, ao qual se acendem velas pelos campos, para que favoreça a descoberta de objetos perdidos; as benzeduras cabalísticas para curar os animais, para amassar e vender sezões; todas as visualidades, todas as aparições fantásticas, todas as profecias esdrúxulas de messias insanos; e as romarias piedosas; e as missões; e as penitências… todas as manifestações completas de religiosidade indefinida são explicáveis.
Idem, ibidem.
Considerando, exclusivamente, as informações contidas no texto, julgue (C ou E) os itens seguintes.
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A “religião mestiça” do sertanejo emergiu da mescla de crenças próprias dos três povos que o constituíram.
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A convivência de manifestações religiosas heterogêneas explica-se pela “aproximação violenta de tendências distintas” (R.5-6).
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A afirmação “É desnecessário descrevê-las.” (R.6) deve ser entendida literalmente.
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“S. Campeiro” (R.15) é a denominação atribuída pelo Vaticano ao santo do campo, da escuridão e das coisas perdidas.