A sua [do sertanejo] religião é como ele — mestiça. Resumo dos caracteres físicos e fisiológicos das raças de que surge, [o sertanejo] sumaria-lhes identicamente as qualidades morais. É um índice da vida de três povos. E suas crenças singulares traduzem essa aproximação violenta de tendências distintas. É desnecessário descrevê-las. As lendas arrepiadoras do caapora travesso e maldoso, atravessando célere, montado em caititu arisco, as chapadas desertas, nas noites misteriosas de luares claros; os sacis diabólicos, de barrete vermelho à cabeça, assaltando o viandante retardatário, nas noites aziagas das sextas-feiras, de parceria com os lobisomens e mulas sem cabeça noctívagos; todos os mal-assombramentos, todas as tentações do maldito ou do diabo — esse trágico emissário dos rancores celestes em comissão na terra; as rezas dirigidas a S. Campeiro, canonizado in partibus, ao qual se acendem velas pelos campos, para que favoreça a descoberta de objetos perdidos; as benzeduras cabalísticas para curar os animais, para amassar e vender sezões; todas as visualidades, todas as aparições fantásticas, todas as profecias esdrúxulas de messias insanos; e as romarias piedosas; e as missões; e as penitências… todas as manifestações completas de religiosidade indefinida são explicáveis.
Idem, ibidem.
Referentemente a aspectos lingüísticos do texto, assinale a opção incorreta.
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A A gramática normativa desautoriza a colocação pronominal enclítica em “sumaria-lhes” (R.3), recomendando a forma sumar-lhes-ia.
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B O vocábulo “caapora” (R.7) é variante do vocábulo caipora, de origem tupi.
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C Estão dicionarizadas as grafias com hífen de mula-sem-cabeça e “mal-assobramentos” (R.13), mas “lobisomens” (R.12) se escreve, obrigatoriamente, sem hífen.
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D Em uma de suas ocorrências no texto, o itálico é meio de realce de expressão latina.
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E A reiteração da conjunção “e” (R.21) imprime continuidade e fluidez ao texto, sugerindo movimentos ininterruptos ou rápidos.