Texto para as questões de 1 a 5.
Cujas Canções
É costume cada um colocar sua profissão ou títulos nos1
cartões de visitas. No tempo das guerras cisplatinas até ficou
famoso alguém que assim se apresentava: “José Maria da
Conceição — tenente dos Colorados”.4
Ora, quem escreve estas linhas já recebeu alguns
títulos da generosidade de seus conterrâneos. Se pusesse todos
eles, seria pedante; escolher um só seria indelicadeza para7
com os outros proponentes.
Quanto a mim, sempre fui de opinião que bastava o
nome da pessoa, sem a vaidade de títulos secundários. Mas eis10
que a minha camareira fez-me cair em tentação. Dá-se o caso
que saiu a edição do meu livro Canções, ilustrado por Noêmia
e que, ao ser noticiado por Nilo Tapecoara no Bric-à-brac da13
vida, este o publicou com o meu retrato em duas colunas e,
abaixo do mesmo, uma notícia que assim principiava, com a
primeira linha impressa em letras maiúsculas: MÁRIO16
QUINTANA, CUJAS CANÇÕES etc. etc…
Ora, na manhã daquele dia, ao servir-me o café na
cama, sia Benedita não podia ocultar o orgulho que lhe19
causava o seu hóspede e repetia: “Cujas canções, hein, cujas
canções!”
O seu maior respeito era devido, sem dúvida, à22
misteriosa palavra “cujas”.
Mario Quintana. Poesia completa. Rio de
Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 959.
Considerando os sentidos e aspectos morfossintáticos do texto,
julgue (C ou E) os itens a seguir.
-
O mal-entendido narrado na conclusão do texto sugere
uma visão irônica quanto à importância dos títulos. -
Na locução “eis que” (R.10-11), a palavra “eis” perde
não só o traço semântico de imprevisão, ou de
ocorrência súbita, mas também sua equivalência com a
forma veja. -
O pronome “este” (R.14) refere-se a seu antecedente, o
“Bric-à-brac da vida”. -
Na linha 14, a proximidade imediata entre “com o meu
retrato” e “em duas colunas” gera ambigüidade quanto
a haver um ou dois retratos do autor.