CACD

LÍNGUA PORTUGUESA 2007
Modo de Visualização Pública: Você receberá feedback instantâneo, mas suas respostas não serão salvas. Faça login para salvar seu progresso.
Questão q11 de 2007

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

As três almas do poeta
Ênio, poeta latino do século II a. C., falava três1
línguas: o grego, que ele tinha aprendido por ser, na época, a
língua de cultura dominante no sul da Itália; o latim, em que
escreveu suas obras; e o osco (uma língua aparentada com o4
latim), que era, com toda a probabilidade, sua língua nativa.
O mais provável é que o latim fosse usado nas relações com
as autoridades romanas; o grego, nas grandes cidades; e o7
osco, nas regiões rurais. E Ênio, que sabia as três, costumava
dizer que tinha “três almas”.
É curioso observar que ele exprimiu com isso uma10
coisa muito importante relativa ao conhecimento de uma
língua: não se trata simplesmente de “uma outra maneira de
dizer as coisas” (table em vez de mesa, te quiero em vez de13
eu te amo), mas de outra maneira de entender, de conceber,
talvez mesmo de sentir o mundo.
A idéia de que a diferença entre as línguas se resume16
em maneiras distintas de se referir aos objetos do mundo
natural pode ser chamada a “teoria ingênua” da relação entre
a língua e a realidade. E, como a maior parte das teorias19
ingênuas, é, ao mesmo tempo, simples, evidente e incorreta
(não é óbvio que o Sol nasce no leste? Mas não é o Sol que
nasce, é a terra que gira).22
Examinemos um exemplo, quanto ao significado das
palavras nas línguas. Temos, em português, a palavra dedo,
que nos parece muito concreta; diríamos que é simplesmente25
o nome que damos, em nossa língua, a um objeto que nos é
dado pelo mundo real: um dedo é uma coisa, ou seja, uma
parte definida do corpo, e o que pode variar é a maneira de28
designar essa coisa. No entanto, em inglês há duas palavras
para “dedo”: finger e toe, que não são a mesma coisa. Um
finger é um dedo da mão, e um toe é um dedo do pé; para nós31
são todos dedos, mas para um inglês são coisas diferentes.
Esse é um pequeno exemplo de como duas línguas recortam
diferentemente a realidade. Agora podemos ver que a palavra34
portuguesa dedo não é simplesmente a designação de uma
coisa — porque, antes de designar essa coisa, a nossa língua
a definiu de certa maneira. Tanto é assim que o inglês fez uma37
definição diferente, e precisou de duas palavras. O exemplo
das distintas maneiras que as línguas têm de designar as cores
também é bastante ilustrativo disso. 40
Falar uma língua é, portanto, ver o mundo de certa
maneira, e falar três línguas é, até certo ponto, ter a
capacidade de ver o mundo de três maneiras diferentes.43
Talvez fosse isso que o velho Ênio estivesse tentando dizer,
quando afirmou que tinha três almas.
Mário A. Perini. A língua do Brasil amanhã e outros mistérios.
São Paulo: Parábola Editorial, 2004, p. 41-52 (com adaptações).

Julgue (C ou E) os itens subseqüentes, considerando a articulação de elementos textuais, bem como aspectos semânticos e morfossintáticos do texto.

  1. O vocábulo “simplesmente” é empregado com o mesmo sentido nas linhas 12, 25 e 35 do texto.

  2. No trecho “mas de outra maneira de entender, de conceber, talvez mesmo de sentir o mundo” (R.14-15), observa-se a ocorrência de um único termo como complemento de três verbos.

  3. A substituição de “Tanto é assim que” (R.37) por Tanto que prejudicaria o sentido do período em que tal expressão se insere.

  4. A posposição de “certa” na expressão “certa maneira” (R.37) prejudicaria a coerência do texto.