Elabore redação sobre o soneto abaixo.
(O soneto 'LEGADO' encontra-se no recurso 't1').
Elabore redação sobre o soneto abaixo.
(O soneto 'LEGADO' encontra-se no recurso 't1').
Em “Legado”, um de seus poemas mais conhecidos, Carlos Drummond de Andrade faz uma reflexão acerca do risco do esquecimento, tema sempre presente em sua obra. Trata-se de uma escolha curiosa, uma vez que, à época do aparecimento de Claro enigma, o autor já experimentara a consagração. Desde a publicação de A rosa do povo, pelo menos, Drummond era considerado um dos mais importantes poetas brasileiros.
O poema dá a entender que, apesar do reconhecimento público, o autor não tinha ilusões acerca do porvir. Drummond parece considerar-se incapaz de legar à literatura de seu país uma contribuição relevante, capaz de resistir ao tempo. A glória que porventura tenha alcançado passará, sustenta o poeta, e restará apenas o olvido, quando não o escárnio.
Essas considerações não resultam da desconfiança do autor a respeito da qualidade dos próprios versos; são, antes, uma reflexão acerca do lugar da poesia na contemporaneidade. A menção ao mito de Orfeu, na segunda estrofe do soneto, explicita a perplexidade e o desalento de Drummond diante de um mundo indiferente à poesia. É nesse contexto que o poeta parece duvidar da própria capacidade para deixar às novas gerações um legado duradouro, e é por isso que ele afirma não esperar do futuro sorte melhor do que a dos outros.
Pode-se imaginar as diversas razões para a desesperança manifestada pelo autor no que se refere à permanência de sua obra e ao papel a ser desempenhado no mundo pela poesia. Sua geração testemunhara a mais cruenta guerra da história e viveria, na década de 1950, com a revelação dos crimes praticados pelo regime de Stalin, uma profunda desilusão com a utopia socialista. Essas experiências marcaram profundamente a obra de numerosos autores – como os pesquisadores associados à Escola de Frankfurt –, mas as questões suscitadas por Drummond em “Legado” parecem ter outra origem.
Os versos do soneto remetem a um outro tema: o do caráter transitório das coisas na modernidade. Drummond publicou Claro enigma em um período de intensas transformações econômicas, políticas e sociais no contexto nacional. O Brasil de meados do século XX era, ainda, um país predominantemente rural, mas em acelerada urbanização. A paisagem das cidades alterava-se rapidamente, em razão da demanda habitacional, do desenvolvimento dos sistemas de transporte urbano e da industrialização. Drummond percebia essas transformações e perguntava-se sobre o impacto que elas teriam sobre a produção artística, especialmente sobre a poesia, constatando que o novo contexto afetava a possibilidade de permanência da contribuição do escritor.
“Legado” pode ser interpretado, assim, como um poema sobre a aceleração dos tempos; ou, mais precisamente, sobre a permanência da arte em um contexto de transitoriedade. Nesse sentido, Drummond abordou um tema que se popularizaria somente no final do século, com autores como o urbanista francês Paul Virilio – já, então, sob o impacto do advento das novas tecnologias da comunicação.
A questão que Drummond sugere está em saber quais são as condições de permanência da obra de arte nesse contexto, ou seja, como um texto pode tornar-se clássico em uma situação de transitoriedade. O sociólogo britânico Jeffrey Alexander define como clássico o texto que se torna referência acerca de um tema qualquer, como ocorreu, por exemplo, com a obra de Karl Marx em relação ao estudo dos processos de trabalho no capitalismo. Pode-se entender, assim, a obra clássica como uma obra que se tornou, de certa forma, permanente, assegurando a seu autor a lembrança das gerações futuras.
Drummond, sem dúvida, alcançou produzir alguns clássicos, no sentido atribuído à expressão por Alexander. “Legado”, certamente, é um deles; com esse poema, o autor produziu um texto clássico, em língua portuguesa, sobre o tema do esquecimento. O próprio Drummond demonstra ter clareza de que não mais será esquecido, ao referir-se, no verso final do soneto, ao “leitmotiv” de seu poema mais conhecido.
Em “Legado”, um de seus poemas mais conhecidos, Carlos Drummond de Andrade faz uma reflexão acerca do risco do esquecimento, tema sempre presente em sua obra. Trata-se de uma escolha curiosa, uma vez que, à época do aparecimento de Claro enigma, o autor já experimentara a consagração. Desde a publicação de A rosa do povo, pelo menos, Drummond era considerado um dos mais importantes poetas brasileiros.
O poema dá a entender que, apesar do reconhecimento público, o autor não tinha ilusões acerca do porvir. Drummond parece considerar-se incapaz de legar à literatura de seu país uma contribuição relevante, capaz de resistir ao tempo. A glória que porventura tenha alcançado passará, sustenta o poeta, e restará apenas o olvido, quando não o escárnio.
Essas considerações não resultam da desconfiança do autor a respeito da qualidade dos próprios versos; são, antes, uma reflexão acerca do lugar da poesia na contemporaneidade. A menção ao mito de Orfeu, na segunda estrofe do soneto, explicita a perplexidade e o desalento de Drummond diante de um mundo indiferente à poesia. É nesse contexto que o poeta parece duvidar da própria capacidade para deixar às novas gerações um legado duradouro, e é por isso que ele afirma não esperar do futuro sorte melhor do que a dos outros.
Pode-se imaginar as diversas razões para a desesperança manifestada pelo autor no que se refere à permanência de sua obra e ao papel a ser desempenhado no mundo pela poesia. Sua geração testemunhara a mais cruenta guerra da história e viveria, na década de 1950, com a revelação dos crimes praticados pelo regime de Stalin, uma profunda desilusão com a utopia socialista. Essas experiências marcaram profundamente a obra de numerosos autores – como os pesquisadores associados à Escola de Frankfurt –, mas as questões suscitadas por Drummond em “Legado” parecem ter outra origem.
Os versos do soneto remetem a um outro tema: o do caráter transitório das coisas na modernidade. Drummond publicou Claro enigma em um período de intensas transformações econômicas, políticas e sociais no contexto nacional. O Brasil de meados do século XX era, ainda, um país predominantemente rural, mas em acelerada urbanização. A paisagem das cidades alterava-se rapidamente, em razão da demanda habitacional, do desenvolvimento dos sistemas de transporte urbano e da industrialização. Drummond percebia essas transformações e perguntava-se sobre o impacto que elas teriam sobre a produção artística, especialmente sobre a poesia, constatando que o novo contexto afetava a possibilidade de permanência da contribuição do escritor.
“Legado” pode ser interpretado, assim, como um poema sobre a aceleração dos tempos; ou, mais precisamente, sobre a permanência da arte em um contexto de transitoriedade. Nesse sentido, Drummond abordou um tema que se popularizaria somente no final do século, com autores como o urbanista francês Paul Virilio – já, então, sob o impacto do advento das novas tecnologias da comunicação.
A questão que Drummond sugere está em saber quais são as condições de permanência da obra de arte nesse contexto, ou seja, como um texto pode tornar-se clássico em uma situação de transitoriedade. O sociólogo britânico Jeffrey Alexander define como clássico o texto que se torna referência acerca de um tema qualquer, como ocorreu, por exemplo, com a obra de Karl Marx em relação ao estudo dos processos de trabalho no capitalismo. Pode-se entender, assim, a obra clássica como uma obra que se tornou, de certa forma, permanente, assegurando a seu autor a lembrança das gerações futuras.
Drummond, sem dúvida, alcançou produzir alguns clássicos, no sentido atribuído à expressão por Alexander. “Legado”, certamente, é um deles; com esse poema, o autor produziu um texto clássico, em língua portuguesa, sobre o tema do esquecimento. O próprio Drummond demonstra ter clareza de que não mais será esquecido, ao referir-se, no verso final do soneto, ao “leitmotiv” de seu poema mais conhecido.