Origem das culturas
O soldado e o marinheiro permutaram bofetadas, mais ou menos teóricas, numa esquina de minha rua por causa da1
namorada comum, que devia chamar-se Marlene. O duelo durou vinte minutos e cinqüenta pessoas assistiram. A dificuldade total
foi reconstituir o delito, porque tanto no inquérito policial quanto na formação de culpa perante o juiz as espontâneas e numerosas
testemunhas prestaram depoimentos inteiramente contraditórios. Como começara e como findara a luta foi impossível apurar. E4
todos tinham assistido…
Esse processo transfigurador da memória, desajustando e confundindo os elementos formadores do episódio, antecipando
ou postergando a sucessão temática, interfere como autodefesa inconsciente e instintiva, perturbando a seqüência lógica da7
narrativa. Imagine-se há milênios…
A visão do homem pré-histórico padece dessas dificuldades. Reerguer as cidades em ruínas sem a orientação do plano
anterior. Paisagens de intermitências que antes eram continuidades lógicas.10
Possuímos documentos da atividade humana desde o Pleistoceno, ou seja, do Paleolítico inferior, período chelense. A
velha divisão de Thomsen (Chistian Jungensen Thomsen, 1788-1865) data de 1835; estudando o Homem pelas indústrias iniciais
— Idade da Pedra Lascada, Idade da Pedra Polida, Idade dos Metais —, fixa a origem insofismável das culturas.13
Creio que do ponto de vista didático o nascimento da cultura humana iniciou-se com os vestígios materiais da indústria
lítica, enfrentando pela inteligência o complexo atordoador da natureza hostil e virgem. Articulá-la com o esforço animal, na
plenitude do instinto defensivo, é apenas um exercício intelectual em favor da ditadura biológica. Essa exaltação do orgânico em16
detrimento do social reduz a tenacidade do esforço humano, em centenas e centenas de séculos, ao humilhante plano da
causalidade ou do fatalismo, inaceitáveis ambos. Não sendo conhecida de doutrina alguma contemporânea a explicação, mesmo
primária, do processo diferenciador dos primatas superiores ao Homo sapiens, porque justamente o tipo menos biologicamente19
resistente foi o escolhido para a vitória fisiológica de todas as forças brutas, bestiais e telúricas, ensinar-nos da aprendizagem pela
observação zoológica jamais provará por que o Rei da Criação, senhor das técnicas, não conseguiu a perfeição maquinal das
formigas, das abelhas e dos castores. E continua tendo problemas de organização e de acomodação no meio dos semelhantes,22
inquietos e desconfiados.
Creio que a cultura nasce do útil-necessário, no ambiente do real-imediato. Diante da premência da fome, frio e
desabrigo, o primeiro material foi o mais próximo e a primeira técnica improvisada pela urgência vital.25
Luís da Câmara Cascudo. Civilização e cultura: pesquisas e notas de etnografia geral. 2.ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983, p. 65-6 (com adaptações).
Com relação à organização, à linguagem e aos aspectos gramaticais do texto, julgue (C ou E) os itens subseqüentes.
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O autor vale-se da narrativa, na introdução do texto, para captar a atenção do leitor, conduzir-lhe o raciocínio e ilustrar a idéia a ser desenvolvida.
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O autor emprega linguagem precisa em “Possuímos documentos da atividade humana desde o Pleistoceno, ou seja, do Paleolítico inferior, período chelense” (R.11) e “processo diferenciador dos primatas superiores ao Homo sapiens” (R.19).
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No quinto parágrafo, o autor constrói, para a forma verbal “reduz” (R.17), um complemento verbal composto: “a tenacidade do esforço humano” (R.17) e “em centenas e centenas de séculos” (R.17).
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Para evitar a estrutura oracional e tornar o texto mais conciso, o autor recorreu ao processo de derivação de palavras em “nasce do útil-necessário, no ambiente do real-imediato” (R.24).