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LÍNGUA PORTUGUESA 2008
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Questão [LÍNGUA PORTUGUESA – 2008]Discursiva

Cada literatura requer tratamento peculiar, em virtude dos seus problemas específicos ou da relaçãoque mantém com outras. A brasileira é recente, gerou no seio da portuguesa e dependeu da influência de maisduas ou três para se constituir. […]

[…] A nossa literatura é galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem nojardim das Musas… Os que se nutrem apenas delas são reconhecíveis à primeira vista, mesmo quando eruditose inteligentes, pelo gosto provinciano e falta do senso de proporções. Estamos fadados, pois, a depender daexperiência de outras letras, o que pode levar ao desinteresse e até menoscabo das nossas. […]

Antonio Candido. Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1981., 6.ª ed., p. 9-10.

Comente o texto acima, interpretando a propriedade da avaliação nele contida.

Admissão à Carreira de Diplomata (Terceiro Secretário) – 1 –

PROVA ESCRITA DE PORTUGUÊSNa prova a seguir, faça o que se pede, usando, caso julgue necessário, as páginas correspondentes do caderno de rascunho. Em seguida,transcreva os textos para as respectivas folhas do CADERNO DE TEXTOS DEFINITIVOS, nos locais apropriados, pois não serãoavaliados fragmentos de texto escritos em locais indevidos. Respeite os limites mínimos e máximos de palavras estabelecidos.

Nas folhas do caderno de textos definitivos, identifique-se apenas na capa, pois não serão avaliados os textos que tenham qualquerassinatura ou marca identificadora fora do local apropriado.

Leia os textos I, II e III a seguir.Examinadores:

Texto I

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Diplomacia em alto-mar: depoimento ao CPDOC

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Texto II

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Admissão à Carreira de Diplomata (Terceiro Secretário) – 2 –

Texto III

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Memórias Póstumas de Brás Cubas

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Elabore uma dissertação com base no texto I, podendo privilegiar um de seus aspectos. Dê título a sua dissertação.

(valor: 60 pontos)

Com base no texto II, na perspectiva de hoje, interprete o conceito de “‘tomada de consciência’ de nós mesmos”.

(valor: 20 pontos)

Com base no texto III, interprete a referência feita por Machado de Assis ao trecho que atribui a Erasmo, autor do Elogio da Loucura.

(valor: 20 pontos)

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PROVA ESCRITA DE PORTUGUÊSNa prova a seguir, faça o que se pede, usando, caso julgue necessário, as páginas correspondentes do caderno de rascunho. Em seguida,transcreva os textos para as respectivas folhas doCADERNO DE TEXTOS DEFINITIVOS, nos locais apropriados, poisnão serãoavaliados fragmentos de texto escritos em locais indevidos. Respeite os limites mínimos e máximos de palavras estabelecidos.

Nasfolhas do caderno de textos definitivos, identifique-se apenas na capa, poisnão serão avaliadosos textos que tenham qualquerassinatura ou marca identificadora fora do local apropriado.

Examinadores:Geraldo Cordeiro Tupynambá

Denise de Aragão Costa MartinsGisele Gama Andrade

Leia os textos I, II e III a seguir.

Texto I

O punhal de Martinha

Machado de Assis

Quereis ver o que são destinos? Escutai. Ultrajada por Sexto Tarqüínio, umanoite, Lucrécia resolve não sobreviver à desonra, mas primeiro denuncia ao maridoe ao pai a aleivosia daquele hóspede, e pede-lhes que a vinguem. Eles juram vingá-la,e procuram tirá-la da aflição dizendo-lhe que só a alma é culpada, não o corpo, e quenão há crime onde não houve aquiescência. A honesta moça fecha os ouvidos àconsolação e ao raciocínio, e, sacando o punhal que trazia escondido, embebe-o nopeito e morre. Esse punhal podia ter ficado no peito da heroína, sem que ninguémmais soubesse dele; mas, arrancado por Bruto, serviu de lábaro à revolução que fezbaquear a realeza e passou o governo à aristocracia romana. Tanto bastou para queTito Lívio lhe desse um lugar de honra na história, entre enérgicos discursos devingança. O punhal ficou sendo clássico. Pelo duplo caráter de arma doméstica epública, serve tanto a exaltar a virtude conjugal, como a dar força e luz à eloqüênciapolítica.

Bem sei que Roma não é Cachoeira, nem as gazetas dessa cidade baiana podemcompetir com historiadores de gênio. Mas é isso mesmo que deploro. Essaparcialidade dos tempos, que só recolhem, conservam e transmitem as açõesencomendadas nos bons livros, é que me entristece, para não dizer que me indigna.Cachoeira não é Roma, mas o punhal de Lucrécia, por mais digno que seja dosencômios do mundo, não ocupa tanto lugar na história, que não fique um canto parao punhal de Martinha. Entretanto, vereis que esta pobre arma vai ser consumida pelaferrugem da obscuridade.

Martinha não é certamente Lucrécia. Parece-me até, se bem entendo umaexpressão do jornalA Ordem, que é exatamente o contrário. “Martinha (diz ele) é umarapariga franzina, moderna ainda, e muito conhecida nesta cidade, de onde é natural”.Se é moça, se é natural da Cachoeira, onde é muito conhecida, que quer dizermoderna? Naturalmente quer dizer que faz parte da última leva de Citera. Estacondição, em vez de prejudicar o paralelo dos punhais, dá-lhe maior realce, como idesver. Por outro lado, convém notar que, se há contrastes das pessoas, há uma

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coincidência de lugar: Martinha mora na Rua do Pagão, nome que faz lembrar areligião da esposa de Colatino. As circunstâncias dos dous atos são diversas. Martinhanão deu hospedagem a nenhum moço de sangue régio ou de outra qualidade. Andavaa passeio, à noite, um domingo do mês passado. O Sexto Tarqüínio da localidade,cristãmente chamado João, com o sobrenome de Limeira, agrediu e insultou a moça,irritado naturalmente com os seus desdéns. Martinha recolheu-se à casa. Novaagressão, à porta. Martinha, indignada, mas ainda prudente, disse ao importuno: “Nãose aproxime, que eu lhe furo”. João Limeira aproximou-se, ela deu-lhe umapunhalada, que o matou instantaneamente.

Talvez esperásseis que ela se matasse a si própria. Esperaríeis o impossível, emostraríeis que me não entendestes. A diferença das duas ações é justamente aque vai do suicídio ao homicídio. A romana confia a vingança ao marido e ao pai.A cachoeirense vinga-se por si própria, e, notai bem, vinga-se de uma simplesintenção. As pessoas são desiguais, mas força é dizer que a ação da primeira não émais corajosa que a da segunda, sendo que esta cede a tal ou qual subtileza demotivos, natural deste século complicado.

Isto posto, em que é que o punhal de Martinha é inferior ao de Lucrécia? Nemé inferior, mas até certo ponto é superior. Martinha não profere uma frase de TitoLívio, não vai a João de Barros, alcunhado o Tito Lívio português, nem ao nosso JoãoFrancisco Lisboa, grande escritor de igual valia. Não quer sanefas literárias, não ensaiaatitudes de tragédia, não faz daqueles gestos oratórios que a história antiga põe nosseus personagens. Não; ela diz simplesmente e incorretamente: “Não se aproximeque eu lhe furo”. A palmatória dos gramáticos pode punir essa expressão; nãoimporta, oeu lhe furotraz um valor natal e popular, que vale por todas as belas frasesde Lucrécia. E depois, que tocante eufemismo! Furar por matar; não sei se Martinhainventou esta aplicação; mas, fosse ela ou outra a autora, é um achado do povo, quenão manuseia tratados de retórica, e sabe às vezes mais que os retóricos de ofício.

Com tudo isso, arrojo de ação, defesa própria, simplicidade de palavra, Martinhanão verá o seu punhal no mesmo feixe de armas que os tempos resguardam daferrugem. O punhal de Carlota Corday, o de Ravaillac, o de Booth, todos esses e aindaoutros farão cortejo ao punhal de Lucrécia, luzidos e prontos para a tribuna, para adissertação, para a palestra. O de Martinha irá rio abaixo do esquecimento. Tais sãoas cousas deste mundo! Tal é a desigualdade do destino!

Se, ao menos, o punhal de Lucrécia tivesse existido, vá; mas tal alma, nem talação, nem tal injúria, existiram jamais, é tudo uma pura lenda, que a história meteunos seus livros. A mentira usurpa assim a coroa da verdade, e o punhal de Martinha,que existiu e existe, não logrará ocupar um lugarzinho ao pé de Lucrécia, pura ficção.Não quero mal às ficções, amo-as, acredito nelas, acho-as preferíveis às realidades;nem por isso deixo de filosofar sobre o destino das cousas tangíveis em comparaçãocom as imaginárias. Grande sabedoria é inventar um pássaro sem asas, descrevê-lo,fazê-lo ver a todos, e acabar acreditando que não há pássaros com asas… Mas nãofalemos mais em Martinha.

Crônica.A Semana.In:Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1973, p. 615-6.

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Texto II

Os vivos governam os mortos

Boris Fausto

Sabem os historiadores e as pessoas dedicadas às ciências humanas em geralque o passado não é um campo imóvel, de contornos definidos, possibilitando aosespecialistas conhecer os fatos tal como eles realmente aconteceram. Esse foi umgrande sonho positivista que quis aproximar as ciências humanas da objetividade daschamadas “ciências duras” — uma objetividade também relativa, como hoje se sabe— para daí extrair grandes leis explicativas da vida social.

Na verdade, o passado é movente, não por ser tecido apenas por diferentesdiscursos, como os pós-modernos pretendem, mas porque sua interpretação, embusca de graus crescentes de certeza, está sujeita à ampliação do conhecimento e àsopções das construções históricas do presente.

Fico aqui no terreno interpretativo, separando-o algo artificialmente dos avançosdo conhecimento, pois estes e a renovação interpretativa muitas vezes se entrelaçam.

Vejam, por exemplo, o acesso a fontes antes consideradas segredo de Estado,como se deu com os arquivos soviéticos, felizmente bastante preservados. A análisemais aprofundada das decisões da burocracia soviética ou, personalizando, de Stáline sua corte, do universo concentracionário, da liquidação dos camponeses ou atémesmo da aventura insurrecional de novembro de 1935 no Brasil deveram-se aomencionado avanço do conhecimento.

Longe de serem inocentes, as interpretações e reinterpretações dos historiadorestêm muito a ver com sua visão do presente. No caso, invertendo uma conhecidaexpressão de Auguste Comte [1798–1857], são os vivos que governam os mortos.É esse, aliás, o sentido da conhecida expressão de Benedetto Croce [1866–1952],segundo a qual toda história é história contemporânea.

Exemplos não faltam, e entre os mais significativos encontram-se ascontrovérsias interpretativas em torno de duas grandes balizas que marcaram otrabalho dos historiadores e a imaginação dos povos: a Revolução Francesa [1789]e a Revolução Russa [1917].

É curioso observar, por outra parte, que as reelaborações do passado, versandosobre processos históricos, instituições, acontecimentos ou personagens, ganharamuma popularidade que transcende os círculos acadêmicos. Matéria publicada nestaFolhaem 6/2, com o sugestivo títuloRevisionismo Histórico ViraBest SellernosEUA, refere-se a esse fenômeno. Os exemplos aí citados, indo da revisão da Guerrada Secessão [1861–65] à da figura do presidente Roosevelt [1882–1945] e daimplantação doNew Deal, são indicativos de um misto de ampliação do conhecimentohistórico e, ao mesmo tempo, da irresponsabilidade que, em certos casos, acompanhao ímpeto interpretativo.

A que se deve a popularidade das revisões? Entre outras razões, ao prazer queo leitor encontra na desconstrução de figuras históricas, sobretudo quando convertidasem mitos, como ocorre com Churchill [1874–1965], Roosevelt e tantos outros. A

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busca de sensações novas, crescente no mundo urbano desde as últimas décadas doséculo XIX, permite sugerir que o revisionismo com ingredientes sensacionalistas éuma das vertentes desse contexto histórico.

Do ponto de vista cronológico, um aspecto a ser notado é o de que ascontrovérsias interpretativas mais ardorosas dizem respeito, com freqüência, ainstituições, episódios ou personagens de um passado próximo, e menos ao passadomais distante. Isso acontece porque tais controvérsias têm muito a ver com disputaspolíticas que fazem parte da memória das gerações mais velhas, incidindo, ao mesmotempo, num quadro presente, conservando traços do passado.

Para ficar num exemplo nosso, vejam o caso do getulismo e da figura de GetúlioVargas [1883–1954]. Getulismo e antigetulismo foram dois exércitos em combate, noâmbito da história do Brasil, a partir de 1930, com repercussão nas diferentesideologias e, em certa medida, nas disputas do presente.

Se a crítica sem matizes ao getulismo foi superada pelo tempo, a mitificação daépoca e de seu ator principal vem sendo utilizada na defesa do nacionalismo, nascríticas à globalização, nas denúncias ao chamado desmonte da era Vargas. Não é poracaso que, nesse tipo de leitura, a dura repressão do primeiro e longo governo Vargastende a ser ignorada.

Em certos casos, e não só nos círculos acadêmicos, as interpretações de umpassado mais distante são também objeto de disputas árduas, em que se espelhamvisões do presente. Dois exemplos, aqui apenas enunciados, são significativos. Vejama revisão do escravismo, por meio da qual autores como João José Reis, RobertSlenes, Sílvia Lara, entre outros, contrapõem-se às teses estruturalistas clássicas, queressaltam a anomia das populações escravas.

Os revisionistas, em poucas palavras, enfatizam a relevância dos escravos comoagentes históricos, manifestada no plano da resistência social e da cultura. Essavertente, que tem muitos méritos e alguns exageros, guarda relação íntima com acrítica mais geral ao determinismo e com a emergência da sociedade civil,características dos dias que vivemos.

O outro exemplo é o da interpretação da Guerra do Paraguai [1864–70], que sórecentemente, graças aos trabalhos de historiadores como Francisco Doratioto eRicardo Salles, abriu-se a novos caminhos, rejeitando, de um lado, a simplistahistoriografia antiimperialista, tendo como alvo exclusivo a Inglaterra, e, de outro, osfastos heróicos da versão militar.

Isso foi possível porque muitos arquivos foram abertos, no Paraguai e em parteno Brasil, e porque os maniqueísmos de direita e de esquerda perderam muito de suaforça. A constatação tem também a ver com a emergência do regime democrático quepermitiu a revisão, sem temores, da interpretação patrioteira do conflito — uma“verdade inconteste”, na época do regime militar e mesmo antes dele.

Tudo isso indica que as interpretações históricas não são ondas que vão e vêm,como discursos que se equivalem. Elas favorecem a ampliação do conhecimento e,mais do que isso, possibilitam ao cidadão letrado opções de análise do passado quenão o obriga à ingestão de pratos feitos, quase sempre indigestos.

Folha de S. Paulo. 27/2/2005 (com adaptações).

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Texto III

A narrativa na escrita da história e da ficção

Luiz Costa Lima

A tendência à confusão entre as formas discursivas da história e da ficçãoliterária não é apenas um efeito do que têm em comum — a organização narrativa —ou uma resultante da reação ao estatuto inadequado que se conferiu a esta e àquela.Se assim o fosse, essa tendência só se manifestaria em data recente. Ora, J. Lotman*nos faz notar que essa tendência é muitíssimo mais remota. Mostra-nos ele que, soba forma comum de narrativa, desde tempos imemoriais, surgiam dois tipos de relato.De um lado, aqueles que tinham por finalidade apresentar um mundo estável,absolutamente regulado por leis. Fixados sob a forma de mitos, “não lidavam comfenômenos que sucediam apenas uma vez e sem referência às leis naturais, mas comeventos intemporais, sem cessar reproduzidos, e, neste sentido, sem movimento”(Lotman, J.: 1979, 162-3). De outro lado, surgiam as narrativas voltadas para oexcesso, o anômalo e o singular, que, pelo próprio tipo de cena privilegiado, nãopermitiam a representação do ciclo cósmico, nas quais encontra o cerne dos relatosdotados de enredo. Desde tempos sem conta, a humanidade recorreu a estas duasformas antagônicas de narrar. Se a primeira privilegiava a visão de ciclos estáveis,dotados de leis constantes, a segunda ressaltava o acidental irrepetível e singular. “Otexto de enredo (plot-text) moderno é o fruto da interação e da influência recíprocadestas duas espécies de texto, tipologicamente remotas” (Lotman, J.: idem, 163).

A passagem de Lotman realça por outro caminho um velho conhecimento: o mitoé o corpo unânime de cuja fragmentação surgiram, na Grécia, a história e a tragédia.O interesse deste conhecimento assim recuperado está em nos permitir, ao mesmotempo, o melhor entendimento tanto da proximidade quanto da diferença entrehistória e ficção. O fato de que ambas se realizem narrativamente não impede quecada uma provoque um relacionamento diverso com o mundo. O intento do historiadorédesignaro mundo que estuda. Designá-lo não no sentido de apontar o que ali jáestivesse, pronto e apenas à espera da palavra que o propagasse. Designá-lo, nocaso, significa: organizar os restos do passado, tal como presentes ou inferidos dedocumentos, em um todo cujo sentido centralmente não é da ordem do imaginário.A interpretação do historiador, sua forçosa interpretação, será arbitrária se, por contade seus valores, fundá-lo à imagem de outro tempo e fundi-lo às expectativas ecategorias deste. O intento do ficcionista é criar uma interpretação desestabilizadorado mundo. Como este já é demarcado pelas múltiplas representações dosframescotidianos, o correto será dizer que ele cria uma representação desestabilizante dasrepresentações. Representação segunda, a do ficcionista, que não tem o propósito dere-duplicar a primeira, o que a tornaria ociosa, senão que de mostrá-laà distância,assim possibilitando ao receptor uma orientação diversa da que se lhe impõe quando

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é mero “ator”. Porque próximas, as práticas do historiador e do ficcionista podem sercomparadas e não só contrapostas. Porque enraizadas no uso da linguagem, de cujacapacidade organizativa depende a eficácia de ambas, é de se esperar que oquestionamento da cientificidade da história conduza ao estudo mais acurado dosprocedimentos verbais escolhidos pelo historiador. A partir daí, contudo, supor que seconduza como um ficcionista será tão desastroso quanto tem sido para este tomar-seo seu produto como um documento histórico. Próximos, mas distintos, os discursosdo historiador e do ficcionista diferenciam-se tanto pela maneira como suas narrativasse relacionam com o mundo quanto pelo modo como neles atua o narrador.

A aguarrás do tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p. 101-2.

* Iuri (Juri ou Jurij) M. Lotman (1922-1993) é autor de diversas obras sobre Teoria da Literatura e Semiótica. Os trechos citados no texto IIIforam extraídos do ensaioThe origin of plot in the light of typology, publicado na revistaPoetics today1 (1/2): 161-184 (1979). [Nota dosexaminadores].