CACD

LÍNGUA PORTUGUESA 2008
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Questão q4 de 2008

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

As primeiras cartas
O importante não é a casa onde moramos.
Mas onde, em nós, a casa mora.
Avô Mariano
Escapo-me dali, me apressando entre os atalhos. Quando reentro em casa não encontro vivalma. Todos foram para o1
caminho da areia assistir à desgraça, consolando Ultímio. De soslaio, parece-me ouvir um ruído. Entro na sala fúnebre e nada vejo,
senão o aquietado corpo do velho Mariano. Lá está o desfinado, entre flores e velas. Subo para o quarto. De novo, sobre a
cabeceira, uma outra carta. A tremência em minhas mãos não me ajuda a ler:4
Estas cartas, Mariano, não são escritos. São falas. Sente-se, se deixe em bastante sossego e escute. Você não veio a esta
Ilha para comparecer perante um funeral. Muito ao contrário, Mariano. Você cruzou essas águas por motivo de um nascimento.
Para colocar o nosso mundo no devido lugar. Não veio salvar o morto. Veio salvar a vida, a nossa vida. Todos aqui estão7
morrendo não por doença, mas por desmérito do viver.
É por isso que visitará estas cartas e encontrará não a folha escrita mas um vazio que você mesmo irá preencher, com
suas caligrafias. Como se diz aqui: feridas da boca se curam com a própria saliva. Esse é o serviço que vamos cumprir aqui,10
você e eu, de um e outro lado das palavras. Eu dou as vozes, você dá a escritura. Para salvarmos Luar-do-Chão, o lugar onde
ainda vamos nascendo. E salvarmos nossa família, que é o lugar onde somos eternos.
Comece em seu pai, Fulano Malta. Você nunca lhe ensinou modos de ele ser pai. Entre no seu coração, entenda aquela13
rezinguice dele, amoleça os medos dele. Ponha um novo entendimento em seu velho pai. Às vezes, seu pai lhe tem raiva? Pois
lhe digo: aquilo não é raiva, é medo. Lhe explico: você despontou-se, saiu da Ilha, atravessou a fronteira do mundo. Os lugares
são bons e ai de quem não tenha o seu, congênito e natural. Mas os lugares nos aprisionam, são raízes que amarram a vontade16
da asa.
A Ilha de Luar-do-Chão é uma prisão. A pior prisão, sem muros, sem grades. Só o medo do que há lá fora nos prende
ao chão. E você saltou essa fronteira. Se afastou não em distância, mas se alonjou da nossa existência.19
Antes, seu pai estava bem consigo mesmo, aceitava o tamanho que você lhe dava. Desde a sua partida ele se tornou
num estranho, alheio e distante. Seu velhote passou a destratá-lo? Pois ele se defende de si mesmo. Você, Mariano, lhe lembra
que ele ficou, deste lado do rio, amansado, sem brilho de viver nem lustro de sonhar.22
Mia Couto. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 64-5.

As opções a seguir descrevem marca(s) lingüística(s) contida(s) no texto. Assinale a opção em que a(s) marca(s) apontada(s) não corresponde(m) a traço(s) de oralidade do texto.

  1. A Emprego do vocativo “Mariano” e uso do pronome você, para construir o discurso direto.

  2. B Flexibilidade na colocação de pronomes átonos, como em “Sente-se, se deixe em bastante sossego e escute” (R.5) e “Lhe explico” (R.15).

  3. C O emprego do vocábulo “Pois” como marcador discursivo no trecho “Pois lhe digo” (R.14-15).

  4. D Ocorrência de interrogações em discurso direto, como em “Às vezes, seu pai lhe tem raiva?” (R.14) ou “Seu velhote passou a destratá-lo?” (R.21).

  5. E Não-contração da preposição “de” com o pronome “ele”, que é sujeito de infinitivo, conforme ocorre em “Você nunca lhe ensinou modos de ele ser pai” (R.13).