Receita de casa
Ciro dos Anjos escreveu, faz pouco tempo, uma de suas páginas mais belas sobre as antigas fazendas mineiras. Ele dá1
os requisitos essenciais a uma fazenda bastante lírica, incluindo, mesmo, uma certa menina de vestido branco. Nada sei dessas
coisas, mas juro que entendo alguma coisa de arquitetura urbana, embora Caloca, Aldari, Jorge Moreira e Ernâni, pobres
arquitetos profissionais, achem que não.4
Assim vos direi que a primeira coisa a respeito de uma casa é que ela deve ter um porão, um bom porão com entrada pela
frente e saída pelos fundos. Esse porão deve ser habitável porém inabitado; e ter alguns quartos sem iluminação alguma, onde se
devem amontoar móveis antigos, quebrados, objetos desprezados e baús esquecidos. Deve ser o cemitério das coisas. Ali, sob7
os pés da família, como se fosse no subconsciente dos vivos, jazerão os leques, as cadeiras, as fantasias do carnaval do ano de
1920, as gravatas manchadas, os sapatos que outrora andaram em caminhos longe.
Quando acaso descerem ao porão, as crianças hão de ficar um pouco intrigadas; e como crianças são animais levianos,10
é preciso que se intriguem um pouco, tenham uma certa perspectiva histórica, meditem que, por mais incrível e extraordinário
que pareça, as pessoas grandes também já foram crianças, a sua avó já foi a bailes, e outras coisas instrutivas que são um pouco
tristes mas hão de restaurar, a seus olhos, a dignidade corrompida das pessoas adultas.13
Convém que as crianças sintam um certo medo do porão; e embora pensem que é medo do escuro, ou de aranhas-
caranguejeiras, será o grande medo do Tempo, esse bicho que tudo come, esse monstro que irá tragando em suas fauces negras
os sapatos da criança, sua roupinha, sua atiradeira, seu canivete, as bolas de vidro, e afinal a própria criança.16
O único perigo é que o porão faça da criança, no futuro, um romancista introvertido, o que se pode evitar desmoralizando
periodicamente o porão com uma limpeza parcial para nele armazenar gêneros ou utensílios ou mais facilmente tijolo, por
exemplo; ou percorrendo-o com uma lanterna elétrica bem possante que transformará hienas em ratos e cadafalsos em guarda-19
louças.
Ao construir o porão deve o arquiteto obter um certo grau de umidade, mas providenciar para que a porta de uma das
entradas seja bem fácil de arrombar, porque um porão não tem a menor utilidade se não supomos que dentro dele possa estar22
escondido um ladrão assassino, ou um cachorro raivoso, ou ainda anarquistas búlgaros de passagem por esta cidade.
Um porão supõe um alçapão aberto na sala de jantar. Sobre a tampa desse alçapão deve estar um móvel pesado, que fique
exposto ao sol ao menos duas horas por dia, de tal modo que à noite estale com tanto gosto que do quarto das crianças dê a25
impressão exata de que o alçapão está sendo aberto, ou o terrível meliante já esteja no interior da casa.
Rubem Braga. Um pé de milho. 4.ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1982, p. 129-31 (com adaptações).
Acerca da organização, da linguagem e dos aspectos gramaticais do texto, julgue (C ou E) os itens subseqüentes.
-
Em “incluindo, mesmo, uma certa menina de vestido branco” (R.2), o vocábulo sublinhado pode ser corretamente substituído por inclusive.
-
Em “Nada sei dessas coisas” (R.2-3), “entendo alguma coisa de arquitetura urbana” (R.3), “a primeira coisa a respeito de uma casa” (R.5), “cemitério das coisas” (R.7) e “coisas instrutivas” (R.12), a palavra “coisas” (ou seu singular “coisa”) está empregada com o mesmo sentido.
-
O recurso a processos de formação de palavras derivadas pode ser exemplificado em “habitável porém inabitado” (R.6).
-
O sentido de posição inferior, em “sob os pés da família” (R.7-8) e “subconsciente” (R.8), é expresso, respectivamente, por meio do uso de uma preposição e de um prefixo.