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Como iniciar uma dissertação sobre idéias – isto é, não sobre uma ou outra idéia em particular, mas sobre as idéias em geral? Não vejo outra maneira de fazê-lo senão analisando, em primeiro lugar, o que são as idéias, por meio de um exercício de metalinguagem. Só então será possível chegar ao ponto central da discussão a que esse texto se propõe: até que ponto as idéias são coletivas e comuns, e até que ponto são privativas e individuais.
Nietzsche, em seus escritos, afirma que o que temos de mais íntimo e individual é sempre incomunicável, pois a linguagem – que se origina, justamente, na coletividade – distorce e torna comum tudo aquilo que é individual e único. Essa seria, até certo ponto, uma das próprias funções da linguagem: moldar a subjetividade do indivíduo de acordo com as idéias e visões de mundo do grupo ao qual ele pertence, habilitando-o dessa forma para a vida em sociedade.
Penso que nem mesmo Nietzsche saberia dizer, no entanto, exatamente até que ponto desenvolvemos nossas próprias idéias e até que ponto simplesmente adotamos aquelas que a sociedade nos oferece – pois é certo que, ao mesmo tempo em que a sociedade molda os indivíduos, por meio da ação e do pensamento coletivos, os indivíduos também podem moldar e transformar a sociedade por meio da ação e do pensamento individuais. Existe, portanto, a possibilidade de o indivíduo e a sociedade sofrerem influências mútuas, de forma que nem a subjetividade seja inteiramente determinada pela coletividade, nem a sociedade permaneça presa a um conjunto estático e imutável de idéias. Aliás, é justamente isso – o fato de que podemos individualmente influenciar e transformar a coletividade – o que nos torna responsáveis pelas idéias que proferimos, sejam elas oriundas do nosso próprio pensamento ou do conjunto de idéias coletivas mantido pela sociedade à qual pertencemos.
Não seria perigoso, portanto, pensar que as idéias são uma espécie de patrimônio comum? Se isso fosse mesmo verdade, então qualquer um poderia pegá-las para si, a qualquer momento, usando-as e vestindo-as ao sabor do momento, sem nenhuma responsabilidade por sua autoria nem por seu conteúdo. Infelizmente, é assim que muitos candidatos a cargos políticos agem, em época de eleição: adotam idéias e frases de efeito para criar uma fachada atraente para seus planos e propostas sem conteúdo. É comum que políticos de direita adotem, sem nenhum escrúpulo filosófico, discursos e frases típicos da esquerda – e vice-versa -, o que provoca uma grande indiferenciação entre as propostas dos diversos partidos políticos brasileiros. Parece que já não existem mais ideologias e filosofias específicas de esquerda ou de direita. Existe apenas um conjunto de idéias consagradas como politicamente corretas e utilizadas por todos os políticos, como se fossem um “patrimônio comum”. A inteligência do país é que mais sai perdendo, quando as idéias que nele circulam sofrem esse tipo de abuso, sendo proferidas de forma inautêntica por tantas pessoas.
O uso irresponsável das idéias, no entanto, mão é uma exclusividade da época atual. Machado de Assis, no romance Esaú e Jacó, publicado há mais de cem anos, expôs com muita ironia as opções políticas dos gêmeos Pedro e Paulo. O tempo da narração transcorre entre as últimas décadas do Império e os primeiros anos da República. Pedro, com sua personalidade conservadora, define-se como monarquista. Paulo, dono de uma personalidade mais transformadora, adota, por sua vez, uma ideologia republicana – cujas idéias, em certos momentos, chocam sua mãe, Natividade, por irem de encontro ao sistema de governo estabelecido. Machado de Assis, porém, expõe com ironia a preocupação de Natividade com uma idéia subversiva que aparece em certo discurso de seu filho. Paulo, sugere o irônico autor, não havia criado essa idéia: havia apenas repetido um pensamento, ou uma frase, que já se tornara público e comum, e cujo próprio caráter revolucionário se esvaziara ao passar de boca em boca. Não havia, portanto, motivos para acreditar que tal idéia correspondesse às verdadeiras intenções do gêmeo Paulo.
Será correto agir assim? Será que estamos certos, ao adotar e divulgar como nossa qualquer idéia que nos agrade, como se todas as idéias fossem um bem público à nossa disposição? Acredito, pelo contrário, que, em uma sociedade que queira se desenvolver de forma inteligente, um mínimo de responsabilidade e autenticidade no uso das idéias deve ser estimulado e, no que diz respeito à política, exigido pelo povo de todos aqueles que o representam.