Em Emílio, Rousseau constrói a temporalidade da vida1
de Emílio como uma ficção, jamais se teria proposto a aplicá-
la. O menino Emílio não existe, não existiu e não foi pensado
para existir. Trata-se de um artifício lógico-dedutivo para4
meditar sobre a educação e as orientações do ensino. Emílio
é alegoria para reflexão sobre o ato de educar as crianças.
Emílio, que não é filho, tampouco é aluno… É um construto7
teórico e um suporte operatório para a análise conceitual do
ato educativo.
Se o discípulo não se separa do mestre desde o10
nascimento até a maturidade, pode-se supor que o “criador”
do Emílio tenha pretendido que o relato da trajetória de vida
do ser individual correspondesse a uma reconstituição das13
etapas trilhadas pela espécie humana em direção à civilização.
Emílio, ao nascer, é o homem do estado de natureza; o Emílio
bem educado — que, aos 25 anos, se despede de seu educador16
— é o homem civil, que vive em uma sociedade corrompida,
mas que, a despeito disso, pode ser considerado apto para
fundar o legítimo contrato social. O traçado de educação de19
Emílio propõe-se ao educador como metáfora para reflexão,
uma meditação sobre a arte de formar os homens. Com a
mesma estrutura hipotético-dedutiva que orientara seus22
escritos políticos, Rousseau constrói seu educando — um
discípulo que não é e que não pretende ser empírico, mas que
tem sua própria temporalidade inscrita na narrativa dos seus25
primeiros 25 anos de vida em educação.
Carlota Boto. O Emílio como categoria operatória do pensamento rousseauniano.
In: José Oscar de Almeida Marques (Org.). Verdades e mentiras. 30 ensaios em torno
de Jean-Jacques Rousseau. Ijuí–RS: Unijuí, 2005, p. 379-84 (com adaptações).
Com relação aos aspectos morfossintáticos e semânticos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
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Haveria prejuízo para o sentido original do texto se, no trecho “O menino Emílio não existe, não existiu e não foi pensado para existir” (R.3-4), os termos grifados fossem substituídos pela conjunção coordenativa nem.
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Caso o trecho “Emílio, que não é filho, tampouco é aluno…” (R.7) fosse alterado para: Emílio não é filho nem aluno, o período ganharia em concisão, estaria coerente com a informação original do texto, mas teria diminuído seu efeito retórico.
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Se fossem retirados os travessões do trecho “o Emílio bem educado — que, aos 25 anos, se despede de seu educador — é o homem civil” (R.15-17), deveria ser empregada uma vírgula antes do pronome “que” e outra após “educador”, para que o sentido original do texto não fosse prejudicado.
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O enunciado “que vive em uma sociedade corrompida” (R.17) tem, no período em que se insere, sentido explicativo.