CACD

LÍNGUA PORTUGUESA 2009
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Questão q11 de 2009

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

Texto 5
Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda em1
meados da década de 1880, aludia-se ao fato de várias
assembleias provinciais estabelecerem impostos sobre a
exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter,4
e também sobre a importação, o que era expressamente
vedado pela Constituição. Sob pressão de associações
comerciais e dos delegados regionais da Fazenda,7
diversas assembleias foram forçadas a votar a supressão
desses impostos. O Visconde Paranaguá, em seu relatório
para 1883, informava que apenas Pernambuco, Bahia e10
Maranhão ainda resistiam. A questão da repartição dos
impostos e das competências de cada ente federativo
parece, portanto, mais antiga que a própria República.13
Gustavo H. B. Franco (organização, introdução e comentários).
A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do
acionista. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 59 (com adaptações).

Texto Auxiliar 2

Texto 6
Impostos inconstitucionais…
Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostos1
inconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que,
ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais
gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, vox4
clamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no último
paquete. O mais velho acrescentou até que agora hão de repetir
com regularidade estas viagens à corte. 7
— A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiu
ele, não há de morrer de aborrecimento na cela das
probabilidades. Uma chegadinha à corte, de quando em quando,10
não faz mal a ninguém, exceto…
— Exceto…?
— Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentos13
íntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não há
coisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for.
Falei de um modo geral e abstrato. (…)16
— São todos inconstitucionais?
— Todos.
— Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionam19
fazer?
— Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu
amigo, receamos perder tempo. Você conhece a velha máxima que22
diz que a história não se repete?
— Creio que sim.
— Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador,25
ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras e, por
outro lado, como a história não se repete… Você, se fosse
imperador, que é que faria?28
— Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado.
Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o
primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata,31
faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos.
— Os adjetivos?
— Vocês não calculam como os adjetivos corrompem34
tudo, ou quase tudo; e, quando não corrompem, aborrecem a
gente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria.
Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo.37
— Mas que temos nós outros com isso?
— Tudo; vocês como simples impostos são excelentes,
gorduchos e corados, cheios de vida. O que os corrompe e faz40
definhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por um
decreto todos os adjetivos de Estado, resolvia de golpe esta velha
questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que tenho colhido da43
história e da política, que aí dou por dois vinténs a todos os que
governam o mundo: os adjetivos passam, e os substantivos ficam.
Machado de Assis. In: Gazeta de notícias (1881–1900).
Balas de Estalo. Rio de Janeiro, 16/5/1885.

Acerca das ideias e dos sentidos do texto 6, assim como de suas estruturas linguísticas e organização textual, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. O narrador recorreu à função metalinguística da linguagem para formular, ao final da crônica, sua máxima, carregada de arbitrariedade.

  2. O autor valeu-se do discurso indireto livre, que consiste em dar voz e atribuir características e sentimentos humanos a seres inanimados.

  3. O trecho “Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o primeiro cético do meu tempo.” (R.30-31) produz efeito humorístico, por sua incongruência interna e por desviar-se do “caso de que se trata” (R.31).

  4. A frase “vox clamantis in deserto” (R.4-5) está em itálico, porque remete o interlocutor ao respectivo texto-fonte e faz parte da memória coletiva nacional.