Que a obra de boa qualidade sempre se destaca é uma1
afirmação sem valor, se aplicada a uma obra de qualidade
realmente boa e se por “destaca” quer-se fazer referência à
aceitação na sua própria época. Que a obra de boa qualidade4
sempre se destaca, no curso de sua futuridade, é verdadeiro;
que a obra de boa qualidade mas de segunda ordem sempre se
destaca, na sua própria época, é também verdadeiro.7
Pois como há de um crítico julgar? Quais as qualidades
que formam não o incidental, mas o crítico competente? Um
conhecimento da arte e da literatura do passado, um gosto10
refinado por esse conhecimento, e um espírito judicioso e
imparcial. Qualquer coisa menos do que isto é fatal ao
verdadeiro jogo das faculdades críticas. (…)13
Quão competente é, porém, o crítico competente?
Suponhamos que uma obra de arte profundamente original
surja diante de seus olhos. Como a julga ele? Comparando-a16
com as obras de arte do passado. Se for original, afastar-se-á
em alguma coisa — e, quanto mais original, mais se afastará
— das obras de arte do passado. Na medida em que o fizer,19
parecerá não se conformar com o cânone estético que o crítico
encontra firmado em seu pensamento. (…)
De todos os lados, ouvimos o clamor de que o nosso22
tempo necessita de um grande poeta. O vazio central de todas
as modernas realizações é uma coisa mais para se sentir do
que para ser falada. Se o grande poeta tivesse de aparecer,25
quem estaria presente para descobri-lo? Quem pode dizer se
ele já não apareceu? O público ledor vê, nos jornais, notícias
das obras daqueles homens cuja influência e camaradagens28
tornaram-nos conhecidos, ou cuja secundariedade fez que
fossem aceitos pela multidão.
Fernando Pessoa. Fernando Pessoa – obras em
prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, p. 284-85.
Com relação a vocabulário e aspectos gramaticais do texto IV, julgue C ou E.
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Seria mantida a correção gramatical do texto, caso fosse suprimido o acento indicativo de crase empregado em “à aceitação na sua própria época” (R.3-4).
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Na frase “Quais as qualidades que formam não o incidental, mas o crítico competente?” (R.8-9), o emprego da palavra de realce “que” e a oposição estabelecida por “não…, mas” são recursos de ênfase.
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Pelo desenvolvimento das ideias do texto, verifica-se que a referência do sujeito elíptico de todas as orações do período iniciado por “Se for original” (R.17) corresponde à expressão “o crítico competente” (R.14).
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O emprego do pronome “nos”, no segmento “tornaram-nos conhecidos” (R.29), evidencia que o autor do texto se inclui entre os homens “aceitos pela multidão” (R.30).