Texto V
As turmas povoadoras que para lá [Acre] seguiam1
deparavam com um estado social que ainda mais lhes
engravecia a instabilidade e a fraqueza. Aguardava-as, e ainda
as aguarda, a mais imperfeita organização do trabalho que4
ainda engenhou o egoísmo humano.
Repitamos: o sertanejo emigrante realiza, ali, uma
anomalia sobre a qual nunca é demasiado insistir: é o homem7
que trabalha para escravizar-se. Ele efetua, à sua custa e de
todo em todo desamparado, uma viagem difícil, em que os
adiantamentos feitos pelos contratadores insaciáveis, inçados10
de parcelas fantásticas e de preços inauditos, o transformam
as mais das vezes em devedor para sempre insolvente.
A sua atividade, desde o primeiro golpe de13
machadinha, constringe-se para logo num círculo vicioso
inaturável: o debater-se exaustivo para saldar uma dívida que
se avoluma, ameaçadoramente, acompanhando-lhe os16
esforços e as fadigas para saldá-la.
E vê-se completamente só na faina dolorosa. A
exploração da seringa, neste ponto pior que a do caucho,19
impõe o isolamento. Há um laivo siberiano naquele trabalho.
Dostoiévski sombrearia as suas páginas mais lúgubres com
esta tortura: a do homem constrangido a calcar durante a vida22
inteira a mesma “estrada”, de que ele é o único transeunte,
trilha obscurecida, estreitíssima e circulante, ao mesmo ponto
de partida. Nesta empresa de Sísifo a rolar em vez de um25
bloco o seu próprio corpo — partindo, chegando e partindo
— nas voltas constritoras de um círculo demoníaco, no seu
eterno giro de encarcerado numa prisão sem muros, agravada28
por um ofício rudimentar que ele aprende em uma hora para
exercê-lo toda a vida, automaticamente, por simples
movimentos reflexos — se não o enrija uma sólida estrutura31
moral, vão-se-lhe, com a inteligência atrofiada, todas as
esperanças, e as ilusões ingênuas, e a tonificante alacridade
que o arrebataram àquele lance, à ventura, em busca da34
fortuna.
Euclides da Cunha, 1866-1909. Um clima caluniado (fragmento). In:
Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. Seleção e
coordenação de Hildon Rocha. Petrópolis: Vozes, Brasília, INL (coleção
Dimensões do Brasil, v.1), 1976, p. 131-2 (com adaptações).
Texto VI
Sobretudo naturalista e positivista, Euclides foi1
rejeitado pelo Modernismo. A retórica do excesso, o registro
grandíloquo, o tom altíssono só poderiam ser avessos ao
espírito modernista. Acrescente-se a isso sua preocupação4
com o uso de uma língua portuguesa castiça e até arcaizante,
ao tempo em que Mário de Andrade ameaçava todo mundo
com seu projeto de escrever uma Gramatiquinha da fala7
brasileira.
No entanto, mal sabiam os modernistas que, em
Euclides, contavam com um abridor de caminhos. As10
numerosas emendas a que submeteu as sucessivas edições de
Os Sertões, enquanto viveu, apontam para um progressivo
abrasileiramento do discurso. No longo processo de emendar13
seu próprio texto, a prosódia ia, aos poucos, sobrepujando a
ortoepia, esta, sim, portuguesa, mostrando que o ouvido do
autor ia desautorizando sua sintaxe e, principalmente, sua16
colocação de pronomes anterior.
Ainda mais, o Modernismo daria continuidade a
algumas das preocupações de Euclides com os interiores do19
país e com a repulsa à macaqueação europeia nos focos
populacionais litorâneos. Partilharia igualmente com ele a
reflexão sobre a especificidade das condições históricas do22
país, na medida em que, já em Os Sertões, Euclides realizara
um mapeamento de temas que se tornariam centrais na
produção intelectual e artística do século XX, ao analisar o25
negro, o índio, os pobres, os sertanejos, a condição
colonizada, a religiosidade popular, as insurreições, o
subdesenvolvimento e a dependência. Aí fincaram suas raízes28
não só o Modernismo, mas também o romance regionalista de
1930 e o nascimento das ciências sociais no país na década de
40 do século passado. Muitas dessas preocupações não eram,31
evidentemente, exclusivas de Euclides, mas comuns às elites
ilustradas nas quais ele se integrava e das quais se destacou ao
escrever Os Sertões.34
Walnice Nogueira Galvão. Polifonia e paixão (fragmento). In: Euclidiana: ensaios sobre
Euclides da Cunha. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 28-9 (com adaptações).
Com relação aos textos V e VI, julgue C ou E.
-
No texto V, o emprego de “engravecia” (R.3) e de “vão-se-lhe” (R.32) ilustra a afirmação da autora do texto VI a respeito da preocupação de Euclides da Cunha “com o uso de uma língua portuguesa castiça e até arcaizante” (R.5).
-
No texto V, a adjetivação recorrente e o recurso a referências eruditas na descrição do trabalho do sertanejo no seringal são exemplos de características do estilo euclidiano que, no entender da autora do texto VI, são avessas “ao espírito modernista” (R.3-4).
-
Por serem trechos de ensaios, os textos V e VI apresentam-se em linguagem desprovida de informalidade, predominando, no texto V, a função poética da linguagem e, no texto VI, a função conativa.
-
No texto V, corrobora-se a análise da autora do texto VI no que concerne às preocupações de Euclides da Cunha acerca das condições do interior do país.