É uma tecla muito batida pelos que procuram estudar1
o caráter dos brasileiros o gosto que estes revelam pela
improvisação em todos os ramos de atividade. A cada passo,
se verifica o pendor deles para as tarefas improvisadas, de4
que, não raro, se saem com brilho e galhardia. Isso de se
preparar longa e pacientemente para resolver os problemas
próprios a uma especialidade não vai muito com eles.7
Improvisam-se os nossos sociólogos, improvisam-se os nossos
estadistas, improvisam-se os nossos linguistas.
Os nossos grandes poetas podem se contar pelos10
dedos, e nenhum tivemos até hoje capaz de uma destas obras
de fôlego, como a Divina Comédia, o Fausto ou Os
Lusíadas, onde, escolhido o tema capital, o seu autor põe, ao13
lado das ideias-mestras da cultura do seu tempo, toda a sua
inteligência e toda a sua sensibilidade. Agora, abancai ao
zinco de um bar em dias de carnaval e, aparecendo um violão,16
vereis com que facilidade o malandro mais desprovido de
letras inventa um despotismo de quadrinhas de desafio ou de
embolada. Isso na cidade. No sertão, então, nem se fala. Para19
os matutos do Nordeste, “poeta” só é o sujeito capaz de
improvisar na boca da viola. Não sei quem foi o literato que,
de uma feita, recitou para uns cantadores do sertão algumas22
poesias de Bilac. Os homens ouviram calados, mas depois
indagaram se Bilac era “poeta” mesmo.
— Como poeta mesmo?25
— Nós queremo sabê se ele é capaz mêmo de improvisá na
viola…
Manuel Bandeira. O dedo de Deus, o dedo do alemão e o dedo do brasileiro.
In: Crônicas inéditas II, 1930-1944. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p.16.
Com relação ao texto I, julgue C ou E.
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Nesse texto, o autor considera a improvisação um traço característico da produção literária brasileira, que a distingue da literatura de outros países, bem como de outras artes e de outros ofícios nacionais.
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No texto, os traços da cultura brasileira destacados servem de contraponto à apologia do pendor literário dos estrangeiros, sustentada nas premissas de que estes são mais sensíveis que os autores brasileiros e de que empenham plenamente sua inteligência na produção de suas obras.
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O emprego de verbos flexionados na segunda pessoa do plural, evidência do apego do autor ao rigor do uso formal da língua escrita, destoa da impessoalidade e da objetividade que caracterizam o texto.
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O autor do texto não se exime de emitir julgamento de valor em relação a obras literárias e a escritores, o que se conforma com o gênero do texto: a crônica.