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LÍNGUA PORTUGUESA 2010
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Questão q4 de 2010

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

A poesia ao meu alcance só podia ser a humilde nota1
individual; mas, como eu disse, não encontrei em mim a tecla
do verso, cuja ressonância interior não se confunde com a de
nenhum timbre artificial. Quando mesmo, porém, eu tivesse4
recebido o dom do verso, teria naufragado, porque não nasci
artista. Acredito ter recebido como escritor, tudo é relativo,
um pouco de sentimento, um pouco de pensamento, um pouco7
de poesia, o que tudo junto pode dar, em quem não teve o
verso, uma certa medida de prosa rítmica; mas da arte não
recebi senão a aspiração por ela, a sensação do órgão10
incompleto e não formado, o pesar de que a natureza me
esquecesse no seu coro, o vácuo da inspiração que me falta…
Ustedes me entienden. “O artista — disse Novalis — deve13
querer e poder representar tudo”. Dessa faculdade de
representar, de criar a menor representação das coisas
— quanto mais uma realidade mais alta do que a realidade,16
como queria Goethe — fui inteiramente privado. Nem todos
os que têm o dom do verso são por natureza artistas, e nem
todos os artistas têm o dom do verso; a prosa os possui como19
a poesia; a mim, porém, não coube em partilha nem o verso
nem a arte.
É singular como, entre nós, se distribui o título de22
artista. Muitas vezes, tenho lido e ouvido falar de Rui Barbosa
como de um artista, pelo modo por que escreve a prosa. No
mesmo sentido, poder-se-ia chamar a Krupp artista: a25
fundição é, de alguma forma, uma arte, uma arte ciclópica, e
de Rui Barbosa não é exagerado dizer, pelos blocos de ideias
uns sobre os outros e pelos raios que funde, que é28
verdadeiramente um ciclope intelectual. Mas o artista?
Existirá nele a camada da arte? Se existe, e é bem natural,
ainda jaz desconhecida dele mesmo por baixo das31
superposições da erudição e das leituras. Eu mesmo já
insinuei uma vez: ninguém sabe o diamante que ele nos
revelaria, se tivesse a coragem de cortar, sem piedade, a34
montanha de luz, cuja grandeza tem ofuscado a República, e
de reduzi-la a uma pedra.
Joaquim Nabuco. Minha formação. Brasília:
Editora Universidade de Brasília, 1981, p. 64-65.

Com relação ao texto II, julgue C ou E.

  1. Segundo o escritor, a arte e o dom do verso são aptidões inatas, como evidencia o emprego, entre outros, do verbo receber, nas linhas 5, 6 e 10, e da expressão “órgão incompleto e não formado” (R.10-11).

  2. De acordo com o texto, Novalis confia na capacidade do artista de representar a realidade, ao contrário de Goethe, que não acredita que a realidade possa ser alcançada pela arte.

  3. No último parágrafo do texto, a comparação entre a obra de Rui Barbosa e o produto da indústria metalúrgica serve ao propósito de questionar a atribuição a esse intelectual do título de artista.

  4. Depreende-se do texto que o dom da arte pode permanecer latente e ser ignorado pelo indivíduo dele dotado, durante toda a existência.