Pernambucano em Málaga
A cana doce de Málaga1
dá domada, em cão ou gata:
deixam-na perto, sem medo,
quase vai dentro das casas.4
É cana que nunca morde,
nem quando vê-se atacada:
não leva pulgas no pelo7
nem, entre folhas, navalha.
A cana doce de Málaga
dá escorrida e cabisbaixa:10
naquele porte enfezado
de crianças abandonadas.
As folhas dela já nascem13
murchas de cor, como a palha:
ou a farda murcha dos órfãos,
desde novas, desbotadas.16
A cana doce de Málaga
não é mar, embora em praias,
dá sempre em pequenas poças, 19
restos de uma onda recuada.
Em poças, não tem do mar
a pulsação dele, nata:22
sim, o torpor surdo e lasso
que se vê na água estagnada.
A cana doce de Málaga25
dá dócil, disciplinada:
dá em fundos de quintal
e podia dar em jarras.28
Falta-lhe é a força da nossa,
criada solta em ruas, praças:
solta, à vontade do corpo,31
nas praças das grandes várzeas.
João Cabral de Melo Neto. A educação pela pedra e outros
poemas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p. 149-50.
Com relação ao poema, julgue C ou E.
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O contraste entre a “cana de Málaga” e a “nossa” cana, explícito na última estrofe, é prenunciado pelo título do poema e pelas construções negativas usadas na caracterização da cana de Málaga.
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A polissemia da palavra “doce” presta-se à construção do sentido global do poema, pois permite caracterizar tanto o sabor da cana como sua docilidade, sua brandura.
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O ufanismo expresso na última estrofe é marca do estilo de época a que pertence o poema.
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O poeta contrasta características do espaço geográfico da Espanha e do Brasil, para demonstrar que, neste país, as condições são mais favoráveis que naquele para o cultivo da cana-de-açúcar.