Tendo em vista a discussão a respeito das identidades na sociedade globalizada contemporânea, disserte, com base nos textos apresentados (recursos 't1' e 't2'), acerca da tensão entre o nacional e o universal.
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O processo por meio do qual diferentes culturas entram em contato ocorre desde as primeiras grandes migrações de que se tem notícia. É com base na relação estabelecida entre povos distintos que se pode identificar determinados costumes, os quais, associados a um grupo de indivíduos, se distinguem de outros hábitos, vinculados, estes, a outro grupo social. O conceito de cultura, entendido como conjunto de ritos sociais, de valores morais consubstanciados em um padrão ético e de símbolos compartilhados por meio de um código linguístico, decorre da relação de oposição entre povos. Observa-se, no decorrer dos processos históricos, uma intensificação do contato entre diferentes sociedades, sobretudo quando se considera o período das grandes navegações feitas por povos ibéricos e, posteriormente, por holandeses, britânicos e franceses. As viagens marítimas realizadas nos séculos XV, XVI e XVII, período em que se constata a transição do Renascimento para a Idade Moderna, possibilitaram uma interação entre culturas particularmente distintas – a europeia e a ameríndia, por exemplo.
A globalização, embora caracterizada por processos que não se vinculam a tempos pretéritos, pode ser entendida, em grande medida, como um desdobramento da modernidade. Possibilitada pelo advento de tecnologias digitais, por meio das quais diversas formas de comunicação se estabelecem entre indivíduos a habitar diferentes regiões do planeta, a globalização permite um contato entre culturas cuja instantaneidade surpreenderia, de forma radical, um navegador ibérico do século XVI. A crescente sofisticação dos meios de transporte e a ubiquidade das informações em circulação permitem, contemporaneamente, um contínuo imbricamento entre culturas distintas. Em decorrência dos permanentes contatos entre diversas formas de pensamento, que se relacionam dialeticamente, observam-se dois fenômenos, entre os quais há, também, relação dialética: a homogeneização de valores – políticos, sociais, econômicos – e, simultaneamente, a referência, feita por diferentes povos, à singularidade de culturas locais. A ocorrência desses dois processos, cujo paroxismo se deve à globalização, acarreta um pertinente debate sobre as perspectivas nacional e universal; sobre o que é – e deve ser – global, partilhado por todas as nações, e o que se circunscreve ao âmbito local.
A tensão entre concepções que aspiram a uma vigência universal e ideias que se restringem a determinada comunidade, infensas a pensamentos fomentados por outros povos, ganhou particular importância no momento em que ao conceito de Estado – organização política e administrativa circunscrita a território habitado por determinada população – se somou outro conceito – o de nação. A modernidade valeu-se dessa ideia para garantir a manutenção do Estado, entidade permanentemente sujeita à desintegração. A Revolução Francesa e a posterior tentativa de divulgação – e imposição – dos ideais republicano e democrático, realizada por Napoleão Bonaparte, marcam a gênese da ideia de nação. A essa época, um normando devia saber-se sobretudo francês, identidade que se elabora mediante uma relação de oposição a outras nacionalidades.
São notórios, no século XIX, os projetos, feitos por eminentes pensadores, que visavam à consolidação da ideia de nação. Filólogos e filósofos alemães, a viver em territórios ocupados por Napoleão, estudaram com minúcia inúmeras lendas teutônicas, com as quais buscavam definir uma identidade alemã. Os contos dos irmãos Grimm e os estudos folclóricos feitos por Herder resultaram do afã de buscar uma essência teutônica. Esforço semelhante foi envidado por escritores românticos no Brasil Imperial. Consolidada a condição independente do país, era preciso escrutinar aspectos que marcassem a singularidade do brasileiro em face de outros povos. José de Alencar, escritor que se empenhou na tarefa de consolidar uma nacionalidade brasileira, buscou romper o vínculo com a matriz lusitana, ao afirmar que um povo inclinado à fruição do caju havia de se distinguir por completo do português dado a comer pêra.
A utopia universalista, por sua vez, esteve sempre a opor-se a aspirações nacionalistas. Paradoxalmente, o Iluminismo fomentava tanto valores nacionais quanto universais. A noção de contrato social, proposta por Rousseau, pressupõe um Estado e um povo que com ele se identifique. Kant, contudo, outro expoente da razão iluminista, propugnava arduamente uma confederação de Estados, unidos sob o pálio de uma entidade supranacional. O debate sobre a oposição entre concepções universais e nacionais tornou-se particularmente polêmico no século XX, no início do qual formulações da antropologia culturalista se contrapuseram aos dogmas deterministas, dos quais Comte e Taine foram expoentes. O cotejo de diferentes culturas ensejou o conceito de relativismo, que nega, em grande parte, a existência de valores universais. Outras disciplinas, como a filosofia, caracterizaram-se, também, por proposições relativistas. Michel Foucault, por exemplo, ao postular que os diferentes discursos engendrados pelo homem têm sua verdade – ou o que afirmam ser verdadeiro – condicionada pelo contexto histórico, nega que haja valores universais. Outro filósofo, o vienense Wittgenstein, afirma que a verdade decorre dos jogos de linguagem, travados entre falantes de determinada língua. Se há diversas línguas, há distintas verdades. Essa inferência evidencia que também na filosofia analítica de Wittgenstein há relativismo.
A despeito das teorias que refutam ideias de vigência universal, não se pode afirmar que elas lograram êxito absoluto. Parece-nos mais interessante pensar sobre a tensão que se estabelece entre ideias universais e nacionais, entre verdades que se aplicam a todos os homens e verdades relativas a determinados grupos, com base nas teorias e nas criações artísticas de escritores modernistas do século XX. Expoentes do modernismo brasileiro, cuja gênese está na década de 1920, ao buscarem a singularidade de sua nacionalidade, que a torna distinta em face de outros povos, visaram a consolidar um conjunto de valores locais por meio da apropriação de concepções referentes a outras culturas. Oswald de Andrade, em seu Manifesto Antropofágico, propugnava a consolidação de uma cultura genuinamente brasileira, com base na assimilação de características do pensamento europeu. Outro importante fundador do modernismo brasileiro, Mario de Andrade, enquanto estudava manifestações folclóricas do Brasil, não ignorava as vanguardas europeias. Na visão de mundo desses escritores, os fatores que tornam um povo singular conferem a ele, ao mesmo tempo, sua universalidade.
Diante do acirramento da oposição estabelecida entre perspectivas universais e nacionais, o qual decorre da globalização, que, ao aproximar diferentes culturas, evidencia suas discrepâncias, a concepção modernista é particularly produtiva. Ser antropofágico, à maneira de Oswald de Andrade, em um mundo globalizado, é a melhor forma de assimilar o que pertence a outro povo ou o que aspira a ser universal, sem prescindir da singularidade. Diante do fenômeno que se chama globalização, deve-se ser como o Riobaldo de Guimarães Rosa, que apreendia valores universais exatamente porque se concebia como fragmento de um todo.