CARTA PARA ANTONIO CARLOS JOBIM
Porto do Havre [França], 7 de setembro de 1964
Tomzinho querido,
Estou aqui num quarto de hotel que dá para uma1
praça que dá para toda a solidão do mundo. São dez horas da
noite e não se vê viv’alma. Meu navio só sai amanhã à tarde,
e é impossível alguém estar mais triste do que eu. E, como4
sempre nestas horas, escrevo para você cartas que nunca
mando.
Deixei Paris para trás com a saudade de um ano de7
amor, e pela frente tenho o Brasil, que é uma paixão
permanente em minha vida de constante exilado. A coisa ruim
é que hoje é 7 de setembro, a data nacional, e eu sei que em10
nossa embaixada há uma festa que me cairia muito bem, com
o Baden Powell mandando brasa no violão. Há pouco
telefonei para lá, para cumprimentar o embaixador, e veio13
todo mundo ao telefone.
Você já passou um 7 de setembro, Tomzinho,
sozinho, num porto estrangeiro, numa noite sem qualquer16
perspectiva? É fogo, maestro!
Vinicius de Moraes. Querido poeta. São Paulo: Companhia das
Letras, 2003, organização de Ruy Castro, p. 303-4 (com adaptações).
Julgue (C ou E) os itens seguintes, relativos às ideias do texto acima.
-
Pelo emprego da expressão “todo mundo” (R.14), pressupõe-se que, além do embaixador, outros amigos e colegas de trabalho de Vinicius de Moraes, sem que se possa saber quantos, telefonaram-lhe do Brasil.
-
Infere-se da carta de Vinicius de Moraes a Antonio Carlos Jobim que o poeta brasileiro, também diplomata, estava em missão profissional na cidade do Havre por ocasião de uma data nacional brasileira, embora manifestasse preferência por estar em outro lugar.
-
Na carta a Antonio Carlos Jobim, a menção a correspondências que nunca eram enviadas sugere que havia temas confidenciais que só poderiam ser tratados pelo remetente e pelo destinatário da carta de 7 de setembro de 1964 em encontro pessoal.
-
O emprego, no texto, das expressões coloquiais “cairia muito bem” (R.11) e “mandando brasa” (R.12) indica a informalidade com que Vinicius de Moraes escreve a seu destinatário.